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António Costa - O Cinismo de Quem Criou o Problema

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  Há momentos em que a audácia política choca de tal forma com os factos que só pode ser interpretada como um cálculo frio sobre a memória coletiva, ou a falta dela. Num discurso perante o Comité Económico e Social Europeu em Bruxelas, António Costa, atual presidente do Conselho Europeu e ex-primeiro-ministro de Portugal durante oito anos, declarou ser "inaceitável" que jovens portugueses tenham de gastar "100% do salário" durante duas ou três décadas para conseguir comprar uma casa. Uma afirmação verdadeira. Uma afirmação que ele deveria ter feito quando tinha poder para mudar o problema. Uma afirmação que, dita por ele, no papel que ocupa agora, é um insulto a cada português que viveu os anos da sua governação. Comecemos pelo essencial. Os dados. Desde 2015, exatamente o ano em que António Costa chegou ao poder, os preços das casas em Portugal subiram 180%, a segunda maior valorização de toda a União Europeia segundo o Eurostat. Não é coincidência de calendário. É...

A escola portuguesa: entre a promessa e o fracasso

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  Desde o 25 de Abril, a escola portuguesa vive uma promessa contraditória. Ser simultaneamente mais igual, mais democrática e mais exigente. Meio século depois, essa promessa continua por cumprir. O sistema educativo entre o 1.º e o 12.º ano evoluiu para um modelo que certifica mais do que qualifica, que diploma sem verdadeiramente formar, e que, em nome de uma certa ideia de inclusão, foi gradualmente esvaziando o sentido de responsabilidade de alunos, famílias e da própria escola. Esta não é uma falha imputável apenas à esquerda ou à direita. É o resultado de décadas de opções políticas convergentes que, sob diferentes retóricas, produziram o mesmo efeito. Uma escola de mínimos. Desde 1976, a educação portuguesa foi administrada por governos minoritários, coligações instáveis e pactos de legislatura curta. O PS liderou o executivo por mais de duas décadas, o PSD por cerca de oito a nove anos, muitas vezes em coligação. Nenhum dos dois campos construiu uma visão de longo prazo pa...

A Memória Curta e o Sectarismo Cómodo

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  No passado dia 6 de maio, o Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais, na Escola Secundária António Damásio, teve a honra de receber a visita do ex-Primeiro-Ministro Dr. Pedro Passos Coelho. A ocasião inseria-se na disciplina de opção de Ciência Política do 12.º ano, uma iniciativa que temos orgulho em promover e que tem trazido à nossa escola políticos de todos os quadrantes político-partidários, num espírito de abertura, pluralismo e estímulo ao pensamento crítico. O tema debatido foi "Portugal 2040: que papel para os jovens na construção do País". Um tema sério, pertinente,  que merecia ser recebido com a seriedade que lhe é devida. Publiquei a informação na minha página de Facebook. E comecei a ler os comentários. Não foi uma leitura animadora. Entre os vários comentários que surgiram, destaco alguns, pela sua representatividade: "Será que Passos Coelho mandou os jovens emigrar?" "Educação aberta ao mundo..." "Bem... Já nos mandara...

O espelho partido dos partidos tradicionais

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Na cidade da Praia, Cabo Verde, Hugo Soares disse em voz alta aquilo que muitos dirigentes do PSD dizem em privado. Quem saiu do partido para o Chega “nunca teve espaço por falta de qualidade”. A frase é curta, limpa e conveniente. Serve para separar os que ficaram dos que saíram. Uns ficam do lado dos bons. Os outros passam para o lado dos fracos, dos ressentidos, dos incapazes. Mas, dita em Cabo Verde, numa conferência sobre democracia, a frase deixa de soar a desabafo e passa a soar a doutrina. Fica a ideia de que há gente que merece ter lugar no sistema e gente que não merece. Hugo Soares acrescentou outra tese. O populismo combate-se governando bem e pagando melhor aos políticos. Segundo ele, os políticos são hoje mal pagos, e só salários mais altos atrairiam os melhores. É uma ideia antiga. A política como mercado de talentos. Como se o problema principal estivesse na folha salarial e não nos mecanismos de escolha, nas redes de favores ou nos aparelhos partidários. A questão não ...

Vouchers holandeses para a Sertã? A geografia mata a liberdade de escolha

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  Escrevo este artigo porque me deparei, por estes dias, com um texto sobre o sistema de vouchers escolares dos Países Baixos, publicado pelo Instituto +Liberdade, que propõe importar essa experiência para Portugal como solução para os nossos problemas educativos. É uma peça bem-intencionada, que aponta problemas reais, mas que, ao ignorar o mapa português, cai no erro habitual de quem faz política de gabinete sem pisar o terreno. A liberdade de escolha soa bem em conferências, mas torna-se retórica vazia quando só existe para quem vive entre o Marquês e a Boavista, enquanto alunos de Seia, Sertã, Bragança ou Monchique olham para um horizonte de uma única escola pública ao alcance. O modelo neerlandês funciona num país pequeno, denso, com escolas públicas e privadas espalhadas de forma equilibrada e transportes que encurtam distâncias. Aqui, a mesma ideia esbarra na realidade nua. Lisboa e Porto concentram mais privados do que públicas, com o setor particular a valer cerca de 60% d...

RASI 2025: O silêncio que a escola não aguenta

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  O RASI de 2025 não é só um relatório de estatísticas, é um documento de exame de consciência e o país recusou-se a abri-lo à luz do dia. Nas escolas portuguesas registaram-se 8.133 ocorrências no ano letivo 2024/2025, mais 14,1 por cento do que no anterior, 5.694 delas com caráter criminal. O que se esconde atrás destes números é um quotidiano de agressões, ameaças, furto, vandalismo, ofensas sexuais e armas que já não cabem nas lógicas de “incidente pontual” com que a opinião pública prefere tranquilizar-se. As ofensas à integridade física somam 2.198 casos, 1.394 dizem respeito a injúrias e ameaças, 931 são furtos, 322 são atos de vandalismo e 182 casos de ofensas sexuais, um número que cresce ano após ano. Em paralelo, o número de situações de uso ou posse de arma nas escolas aumentou 50 por cento, de 76 para 114, em apenas um ano letivo. Se se somar tudo, o que o país tem é uma média de 35 crimes por dia nas escolas durante 164 dias de aulas, o que se traduz em cerca de 50 in...

Fusão de ciclos. Fé cega ou debate a sério?

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  Há reformas que nascem tortas porque começam pelo fim. E depois há estas, que ainda nem começaram e já parecem condenadas ao velho pecado nacional de confundir decisão com pressa, estudo com propaganda e debate com encenação. A ideia de aproximar o 1.º e o 2.º ciclo pode até fazer sentido. Mas só faz sentido se for tratada como aquilo que é, uma mudança estrutural que mexe com a infância, com a organização da escola, com a formação de professores e com a vida concreta das famílias. O que não faz sentido é fingir que basta alinhar algumas teses importadas, citar meia dúzia de experiências estrangeiras e, de repente, imaginar que a realidade portuguesa se dobra por decreto. É por isso que o estudo agora conhecido do Conselho Nacional de Educação merece ser lido com atenção e sem as habituais birras ideológicas. Não porque apresente uma verdade revelada, mas porque confirma o que muitos já sabiam há anos, o atual 2.º ciclo perdeu identidade, vive entre duas lógicas que nunca casaram...

Da escola do Estado à escola dos Professores

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Por décadas aceitámos, quase com uma resignação fatalista, um sistema em que o Ministério manda em tudo, as direções cumprem o possível e os professores funcionam como mera mão de obra qualificada, mas sem qualquer peso político. É uma realidade que tenho denunciado. Portugal mantém uma das menores taxas de decisões locais na Europa, o que trava qualquer mudança séria na Escola Pública. Ou fingimos reformar por decretos intermináveis, num modus operandi que já conhecemos bem, ou transferimos poder real para quem está nas escolas, com contratos claros e escrutínio público. A lógica de quem conhece o quotidiano escolar diz-nos que um agrupamento poderia ser assumido por um coletivo de professores organizado como entidade sem fins lucrativos. Esse grupo celebraria um contrato de comodato com o Estado e a autarquia para usar edifícios e recursos por períodos de cinco ou sete anos. As lideranças sairiam de eleições abertas à comunidade, com programas pedagógicos e de gestão concretos, onde ...

Portugal sem professores em 2035? É o preço da impunidade e da miséria salarial

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  Este artigo nasce da necessidade de juntos percebermos quais as linhas vermelhas na negociação do novo ECD. Não por mania de cartógrafo institucional, mas porque sem fronteiras claras entre o aceitável e o inaceitável, qualquer diálogo social se transforma em gestão de expectativas em baixa, até à erosão final da escola pública. As projeções oficiais do próprio Ministério da Educação e do CNE sobre falta de professores na próxima década não são um alarme exagerado: são o retrato de um sistema que se aproxima, a passos seguros, de um colapso funcional anunciado. Defendi, em várias intervenções públicas e textos anteriores, que nenhuma reforma faz sentido sem três pilares inseparáveis. Autoridade pedagógica reconhecida e protegida. Desenvolvimento profissional sério e contextualizado. Estrutura de carreira em dez escalões com remuneração condigna para uma profissão de alta qualificação. Sem eles, o sistema educativo português ruma ao colapso que os relatórios do Ministério da Educa...

A escola como tribunal: como o Estatuto do Aluno cria impunidade e mata a autoridade pedagógica

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 Estamos a assistir à desmontagem silenciosa, mas meticulosa, do último reduto que ainda segurava a escola pública de pé. A autoridade pedagógica! Em nome de uma retórica doce de “inclusão”, “flexibilidade” e “aprendizagens essenciais”, ergueu-se um edifício jurídico que parece proteger todos, mas que, na prática, não protege quem ensina nem quem quer aprender. A indisciplina deixou de ser um acaso incómodo para ser o regime normal de funcionamento de demasiadas escolas. As salas transformaram-se em espaços onde meia dúzia decide, impunemente, que a aula é um palco de entretenimento e o resto da turma que se desenrasque. O ruído substituiu a atenção, a intimidação substituiu o respeito, e os alunos que querem aprender vivem sequestrados pelos que descobriram que o sistema não lhes exige praticamente nada. A isto soma‑se um padrão social bem conhecido. Pais que aparecem na escola não para assumir a responsabilidade dos filhos, mas para exigir explicações, contestar sanções, pression...

A escola como prisão, Verão a dentro

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  Não dá para engolir esta teimosia do PSD em silêncio. Na Comissão de Educação e Ciência, o grupo parlamentar social-democrata, que sustenta o Governo, reiterou a posição executiva e recusou de caras qualquer alteração ao calendário escolar do pré-escolar e do 1.º ciclo, que obriga as crianças a arrastarem-se até 30 de junho. Não se pode agitar evidências científicas quando convém, para sustentar algumas medidas, e ignorá-la quando a evidências contrariam a decisão. Onde estão os estudos que justificam manter os miúdos nas salas a ferver, exaustos e sem motivação? Já escrevi sobre isto na CNN Portugal, no artigo “Calendário escolar: quando a escola se torna prisão”, e regresso ao tema porque a hipocrisia transborda. O PSD ignora o que a psicologia do desenvolvimento infantil prova há décadas. O Conselho Nacional de Educação, no parecer de 2017 sobre organização do tempo escolar, deixou claro que mais tempo escolar não equivale a melhor aprendizagem; pelo contrário, gera saturação,...