Mensagens

Portugal sem professores em 2035? É o preço da impunidade e da miséria salarial

Imagem
  Este artigo nasce da necessidade de juntos percebermos quais as linhas vermelhas na negociação do novo ECD. Não por mania de cartógrafo institucional, mas porque sem fronteiras claras entre o aceitável e o inaceitável, qualquer diálogo social se transforma em gestão de expectativas em baixa, até à erosão final da escola pública. As projeções oficiais do próprio Ministério da Educação e do CNE sobre falta de professores na próxima década não são um alarme exagerado: são o retrato de um sistema que se aproxima, a passos seguros, de um colapso funcional anunciado. Defendi, em várias intervenções públicas e textos anteriores, que nenhuma reforma faz sentido sem três pilares inseparáveis. Autoridade pedagógica reconhecida e protegida. Desenvolvimento profissional sério e contextualizado. Estrutura de carreira em dez escalões com remuneração condigna para uma profissão de alta qualificação. Sem eles, o sistema educativo português ruma ao colapso que os relatórios do Ministério da Educa...

A escola como tribunal: como o Estatuto do Aluno cria impunidade e mata a autoridade pedagógica

Imagem
 Estamos a assistir à desmontagem silenciosa, mas meticulosa, do último reduto que ainda segurava a escola pública de pé. A autoridade pedagógica! Em nome de uma retórica doce de “inclusão”, “flexibilidade” e “aprendizagens essenciais”, ergueu-se um edifício jurídico que parece proteger todos, mas que, na prática, não protege quem ensina nem quem quer aprender. A indisciplina deixou de ser um acaso incómodo para ser o regime normal de funcionamento de demasiadas escolas. As salas transformaram-se em espaços onde meia dúzia decide, impunemente, que a aula é um palco de entretenimento e o resto da turma que se desenrasque. O ruído substituiu a atenção, a intimidação substituiu o respeito, e os alunos que querem aprender vivem sequestrados pelos que descobriram que o sistema não lhes exige praticamente nada. A isto soma‑se um padrão social bem conhecido. Pais que aparecem na escola não para assumir a responsabilidade dos filhos, mas para exigir explicações, contestar sanções, pression...

A escola como prisão, Verão a dentro

Imagem
  Não dá para engolir esta teimosia do PSD em silêncio. Na Comissão de Educação e Ciência, o grupo parlamentar social-democrata, que sustenta o Governo, reiterou a posição executiva e recusou de caras qualquer alteração ao calendário escolar do pré-escolar e do 1.º ciclo, que obriga as crianças a arrastarem-se até 30 de junho. Não se pode agitar evidências científicas quando convém, para sustentar algumas medidas, e ignorá-la quando a evidências contrariam a decisão. Onde estão os estudos que justificam manter os miúdos nas salas a ferver, exaustos e sem motivação? Já escrevi sobre isto na CNN Portugal, no artigo “Calendário escolar: quando a escola se torna prisão”, e regresso ao tema porque a hipocrisia transborda. O PSD ignora o que a psicologia do desenvolvimento infantil prova há décadas. O Conselho Nacional de Educação, no parecer de 2017 sobre organização do tempo escolar, deixou claro que mais tempo escolar não equivale a melhor aprendizagem; pelo contrário, gera saturação,...

Os pais das crianças sem limites- Alberto Veronesi

Imagem
  A caneta acaba no silêncio de uma sala onde a autoridade foi sitiada. Antigamente o "não quero queixas da professora" era o selo de uma aliança sagrada entre casa e escola. Hoje a escola virou um tribunal de pequena instância onde o veredito é ditado por mensagens de telemóvel antes do toque de entrada.   Os pais demitidos da função de educadores assumem o papel de advogados de acusação. Transformam o erro do filho numa falha do mestre e o limite num atentado pessoal. Somos meros bonecos nas mãos de quem exige ser servido enquanto o respeito se dissolve em revisões de provas, exigências de notas e recursos de sanções disciplinares. Neste tribunal a que chamam escola o professor está isolado no banco dos réus. Quando a família se torna o primeiro opositor da regra, a educação morre por asfixia. O esgotamento é o eco de um sistema que permitiu que o elevador social fosse sabotado por quem deveria ser o seu primeiro garante.   A sentença está dada e a luz apagou-...

O crepúsculo da razão e a nova inquisição identitária

Imagem
  Caminhamos a passos largos para um abismo civilizacional onde a narrativa substituiu o facto e o dogma identitário atropelou a ciência mais elementar. O que hoje designamos por wokismo não é mais do que uma deriva negacionista e autodestrutiva da nossa cultura que se infiltra nas universidades e no debate público com a subtileza de uma peste silenciosa. Esta ideologia pretende nada menos do que arrasar os fundamentos racionais e éticos da modernidade europeia em nome de uma suposta justiça social que de libertadora nada tem. É inegável que assistimos a uma tentativa deliberada de reescrever a História ao sabor das preocupações do momento ignorando o espírito da época e a mentalidade de quem nos precedeu. Querem impor-nos uma autoflagelação constante pelos erros do passado como se a escravatura ou o imperialismo fossem males exclusivos do Ocidente. Trata-se de uma falácia sem fronteiras que ignora as chacinas de Gengis Khan ou o tráfico turco-árabe para focar apenas no fardo do ho...

A hipocrisia do imobilismo e o puzzle dos espaços

Imagem
Para quem anda nestas lides da Educação há tempo suficiente para ver o carrossel das reformas girar e voltar ao mesmo sítio, o anúncio da fusão do 1.º e 2.º ciclos do Ensino Básico para 2027 não traz o choque da novidade, mas o peso da inevitabilidade. Vamos ser claros! Isto não é um coelho tirado da cartola. Já estava no programa do Governo e recupera, com atraso, a visão estrutural do estudo do Conselho Nacional de Educação de 2008. Mas o que me diverte, ou irritaria, se eu já não tivesse a carapaça dura de anos de sala de aula, é ver a reação pavloviana de certos setores, nomeadamente de alguns arautos do imobilismo, que se apressaram a erguer barricadas. O argumento predileto? Gritam aos céus que “não há evidências robustas de que a fusão melhore as aprendizagens”. Meus senhores, sejamos sérios. Ninguém prometeu melhores aprendizagens com esta medida. O Ministro Fernando Alexandre nunca veio vender a banha da cobra de que esta medida era a pedra filosofal para o sucesso escolar ou ...

O Estado como coutada: a corrupção do espírito e do mérito

Imagem
  Diz-se que a fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia. No Portugal de 2026, a "comedoria" parece ter-se transformado no prato principal de uma classe política que, independentemente da cor da gravata, insiste em confundir o Orçamento do Estado com uma herança de família. Os números da Transparência Internacional são apenas o termómetro de uma doença que já todos conhecemos. A queda para a 46.ª posição no Índice de Perceção da Corrupção não é um acidente de percurso, é o resultado de uma cultura de favores que se instalou nas fundações das nossas instituições. Assistimos, quase impávidos, a um desmantelamento da ética por parte daqueles que mais apregoam a defesa do interesse público. O caso da nomeação de Frederico Perestrelo Pinto para o Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado é de um simbolismo atroz. Não discuto as notas académicas de 17 valores ou o mestrado na Bocconi. O que me causa agrura é a cegueira ética de quem acha normal que o irmão do chefe de gabine...

Dia 8 de Fevereiro: proteger a democracia ou salvar o status quo?

Imagem
  A aproximação ao dia 8 de fevereiro coloca-nos perante um cenário que exige muito mais do que a habitual espuma dos dias ou a repetição acrítica de slogans a que nos habituaram. O que está verdadeiramente em causa nesta eleição disputada num clima de alta tensão entre André Ventura e António José Seguro transcende as próprias figuras e é um teste à maturidade do nosso sistema democrático e à capacidade do eleitorado de separar o trigo do joio no meio de um ruído ensurdecedor. Nas últimas semanas assistimos a um debate público sequestrado por uma chuva de adjetivos onde de um lado temos a colagem de epítetos como fascista ou xenófobo e do outro a retórica antissistema. Mas objetivamente o que é que esta guerra de rótulos produziu? As sondagens e a perceção pública indicam que a estratégia de diabolização usada até à exaustão pode ter esgotado o seu prazo de validade. Ao invés de afastar o eleitorado parece ter cristalizado posições e tornado a disputa muito mais renhida do que as ...

A ilusão do preço e a realidade da oficina: uma escolha de racionalidade

Imagem
Toyota                                                                              Lexus Não se iludam. Compreendo perfeitamente quem opta pelas marcas europeias. Muitas vezes, o preço de aquisição é mais convidativo e o design tem aquele peso histórico que todos respeitamos. É legítimo querer poupar no momento da compra. Contudo, estamos a ser enganados por uma matemática de curto prazo: o que poupamos no stand, acabamos demasiadas vezes a entregar, com juros, na oficina. É urgente distinguir o valor da etiqueta do custo real da vida útil do automóvel. E os factos, caros leitores, não perdoam. Basta analisar com frieza os relatórios da J.D. Power e da Consumer Reports dos últimos seis anos. Não são opiniões, são dados estatísticos massivos que nos mostram uma realidade sistémica: A consistênc...
Imagem
  O estudo de Eugénio Rosa é um murro na mesa que o país insiste em ignorar. Entre 2013 e 2026, a despesa pública em educação, do básico ao superior, desce de 5,2% para 3,6% do PIB, uma quebra de 31% num período em que todos repetem, liturgicamente, que “a educação é prioridade estratégica”. Não é. Uma prioridade não se corta em quase um terço em treze anos, sobretudo quando o mesmo estudo mostra que Portugal é o país da União Europeia com maior peso de trabalhadores com apenas o ensino básico e em que, em 2024, a percentagem de empregados com esse nível de escolaridade era ainda o dobro da média europeia. A mensagem é cristalina. O país acomodou-se a uma economia de baixos salários e baixa qualificação e, coerentemente, desenha um orçamento da educação à medida dessa ambição encolhida.​ A brutalidade dos números desmonta qualquer narrativa de inevitabilidade orçamental. Se em 2026 o Estado destinasse à educação os mesmos 5,2% do PIB de 2013, haveria mais 5,1 mil milhões de euros d...

Ministro Da Educação - A virtude da ação e o pecado da palavra!

Imagem
  Recebi a notícia com a perplexidade de quem, infelizmente, já viu de tudo na Educação, mas que continua a ser surpreendido pela inesgotável criatividade burocrática do Ministério. A reação nas escolas oscila entre a incredulidade e a indignação perante mais uma prova de desconexão. Quero que fique claro! Estou sempre do lado da solução. O que não invalida, antes obriga, que critique aquilo que acho ser, mais uma vez, uma péssima mensagem política enviada às escolas. O Ministério podia perfeitamente ter dito o óbvio e o sensato. Poderia ter dito que iria aproveitar um sistema já instalado de sumários em plataformas internas e que, como se sabe, a esmagadora maioria dos professores cumpre com rigor, podia ter dito que pretendia aproximar ao máximo o número de alunos sem aulas e que, para isso, contava com a colaboração dos docentes para manter o rigor habitual nesta tarefa diária e sagrada. Se a mensagem fosse esta, de parceria e reconhecimento, teria a classe do seu lado. Mas pref...

Ventura é o filho legítimo de 50 anos de fracasso!

Imagem
  Os resultados das eleições presidenciais trazem-nos uma leitura que vai muito para além da simples aritmética eleitoral, embora os números sejam, como sempre, teimosos. Se olharmos para os gráficos, percebemos que António José Seguro pintou o mapa de cor-de-rosa, vencendo em 18 dos 20 distritos. No entanto, esta vitória na primeira volta esconde uma realidade que não pode ser ignorada: a direita, no seu conjunto, tem a maioria. Se somarmos os votos de André Ventura, Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes, atingimos os 50,8%, contra os 35,5% da soma dos candidatos à esquerda. O que falhou então? A esquerda, que parecia fragmentada com vários candidatos, acabou por ser pragmática e reunir os votos em Seguro, que obteve mais 312 mil votos do que o próprio PS nas legislativas. A direita, por sua vez, dispersou-se. Não critico esta dispersão. Em eleições presidenciais, o voto deve ser livre e não arregimentado aos partidos. É salutar que assim seja, pois, o Presidente não é um líde...

O suicídio assistido da democracia e o silêncio dos cúmplices

Imagem
É absolutamente incompreensível e roça o delírio coletivo que a classe política continue a assobiar para o lado perante o elefante que ocupa a sala de estar da democracia portuguesa pois não existe um único deputado ou governante que desconheça a fraude a céu aberto que se passeia nas nossas estradas e vive nos nossos bairros mas escolhem o silêncio como estratégia de sobrevivência. O retrato que a Pordata nos devolve é o de uma nação esquizofrénica que decidiu institucionalizar a mentira como método de gestão económica e social ao criar um sistema fiscal que funciona como uma máquina de triturar a classe média transparente enquanto serve de guarda-costas a uma elite que domina a arte do ocultismo contabilístico. A perversidade começa na própria estrutura do trabalho e do conhecimento uma vez que criámos um paradoxo europeu único onde quem sabe mais obedece a quem sabe menos e temos hoje uma força laboral onde mais de um terço dos trabalhadores possui ensino superior e injeta no mercad...

Apagam o Natal em nome da inclusão

Imagem
  Quando um agrupamento como o de José Maria dos Santos, no Pinhal Novo, decide eliminar por completo qualquer cenário natalício das fotografias escolares para que ninguém “se sinta excluído”, não está a incluir minorias, está a retirar à maioria o direito a ver reconhecida a sua própria cultura num espaço que é, por definição, comum. A direção garante que o valor emocional das fotografias “se mantém intacto”, mas o incómodo dos pais mostra precisamente o contrário, a neutralidade visual não é neutra, é uma escolha que apaga a marca cultural da quadra em nome de uma sensibilidade abstrata que ninguém concretamente reivindicou. A tolerância não consiste em esconder o Natal para poupar eventuais suscetibilidades de quem veio viver para um país maioritariamente cristão secularizado, consiste em esperar que quem chega reconheça que entra numa casa com história e rituais próprios e que os respeite, sem que isso implique que adote a fé ou os costumes. Transformar o calendário e o espaço ...

A inversão do ónus da prova transforma o professor em réu

Imagem
  Vivemos tempos estranhos. O professor entrou na sala de aula e tornou-se suspeito até prova em contrário. Basta uma queixa, muitas vezes anónima, e lá vai ele ter de se explicar, de se defender, de provar que não fez o que o acusam de ter feito. A lógica virou do avesso. Já não é quem acusa que tem de fundamentar a acusação, é o acusado que tem de demonstrar a sua inocência. E isto, convenhamos, é uma brutalidade jurídica. O Código Civil não deixa margem para dúvidas. O artigo 342.º diz o essencial, quem invoca um direito tem de provar os factos em que se baseia. Traduzindo, se me acusam de algo, cabe a quem me acusa apresentar provas, não a mim provar que sou inocente. Se houver dúvida, se não se conseguir apurar a verdade, a questão resolve-se contra quem devia ter provado, ou seja, contra o acusador. É elementar. É assim que funciona o Direito. Ou era. Porque o que acontece hoje, no contexto escolar, é precisamente o contrário. O professor recebe a queixa, é chamado a dar expl...

Presidenciais 2026: Carreiristas da Política Vs Quem Conhece a Vida Real

Imagem
  Portugal encontra-se novamente numa encruzilhada decisiva. As eleições presidenciais de 18 de janeiro de 2026 trazem ao palco um conjunto de oito candidatos que, de formas distintas, representam visões diferentes sobre o que deve ser a liderança do país. Entre políticos de carreira que nunca saíram da bolha de Lisboa, militares que desafiaram o status quo, e vozes que prometem mudança mas acabam por soar a mais do mesmo, os portugueses terão de fazer uma escolha fundamental: queremos continuar com os mesmos rostos que sempre geraram os mesmos problemas, ou estamos dispostos a arriscar numa liderança diferente? Comecemos por Luís Marques Mendes que se apresenta aos portugueses como o candidato da experiência, da estabilidade, da previsibilidade. Nascido em Azurém, Guimarães, em 1957, licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Marques Mendes construiu toda a sua identidade em torno da política. E é precisamente aqui que reside o problema fundamental...