A Memória Curta e o Sectarismo Cómodo

 


No passado dia 6 de maio, o Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais, na Escola Secundária António Damásio, teve a honra de receber a visita do ex-Primeiro-Ministro Dr. Pedro Passos Coelho. A ocasião inseria-se na disciplina de opção de Ciência Política do 12.º ano, uma iniciativa que temos orgulho em promover e que tem trazido à nossa escola políticos de todos os quadrantes político-partidários, num espírito de abertura, pluralismo e estímulo ao pensamento crítico.

O tema debatido foi "Portugal 2040: que papel para os jovens na construção do País". Um tema sério, pertinente,  que merecia ser recebido com a seriedade que lhe é devida.

Publiquei a informação na minha página de Facebook. E comecei a ler os comentários.

Não foi uma leitura animadora.

Entre os vários comentários que surgiram, destaco alguns, pela sua representatividade:

"Será que Passos Coelho mandou os jovens emigrar?"

"Educação aberta ao mundo..."

"Bem... Já nos mandaram emigrar uma vez... num passado recente: que em muito poderá ter contribuído para a atual falta de professores em Portugal..."

"Ainda bem que o meu filho não está nessa escola. Um político que mandou os jovens do seu país emigrar, o que terá de bom para oferecer?"

"Alguém que mandou os jovens irem embora, caso não quisessem pagar os desmandos do sistema financeiro, não me parece de todo ser uma figura inspiradora. Aqueles que, perante as injustiças, incitam à submissão ou à fuga perante a injustiça não são exemplos para a sociedade."

 

“Nop. E cada vez me agonia mais, com o tom de sacristão que me lembra uma outra personagem e com as simpatias que indicia nutrir por um extremo muito pouco recomendável. Antecipo que não tardará a avançar para novos voos e temo pelas coligações que fará. Espero que o futuro me desminta, darei a mão à palmatória com gosto.”

 

“Uma desilusão! Não havia ninguém mais inspirador para convidar???? Um político que defende valores da extrema direita, só falta voltar ao slogan" Deus, pátria, família". Não compreendo o que alguém assim pode ensinar aos nossos jovens”

Alguns destes comentários foram escritos por professores. Por pessoas que, presumo, têm acesso à informação, ao pensamento crítico, e que deveriam, mais do que ninguém, saber distinguir narrativa política de análise histórica.

É por isso que escrevo este artigo. Não para defender um partido. Não para fazer campanha. Mas porque a desinformação repetida com convicção, especialmente por quem tem responsabilidade educativa, é um problema sério. E o silêncio, neste caso, seria cumplicidade.

Para compreender o que foi o período da Troika, é indispensável começar pelo que o precedeu. E o que o precedeu foi a terceira bancarrota do Partido Socialista à frente do Governo de Portugal. Depois das de 1977 e 1983, ambas igualmente com recurso ao FMI. As três foram resultado de gestões económicas falhadas e falta de controlo fiscal, gerando desequilíbrios orçamentais insustentáveis.

Em 2011, Portugal estava literalmente à beira do colapso. O Governo socialista de José Sócrates aprovou o PEC 1. Falhou! Aprovou o PEC 2. Falhou! Aprovou o PEC 3. falhou! O défice público, que era de 3,6% do PIB em 2008, disparou para 10,2% em 2009 e manteve-se em 9,8% em 2010. O país perdeu acesso aos mercados financeiros e viu-se forçado a pedir socorro externo. Foram os 78 mil milhões de euros do FMI, da Comissão Europeia e do BCE que salvaram Portugal de uma derrocada comparável à da Grécia.

O Memorando de Entendimento com a Troika foi negociado e assinado pelo Governo socialista de Sócrates, com o ministro das Finanças Teixeira dos Santos a representar Portugal no ato. Pedro Passos Coelho herdou esse programa. Não o criou.

A economia portuguesa já estava em recessão quando Passos Coelho tomou posse. Entre 2011 e 2013, o PIB caiu cerca de 5,5%.  A segunda pior queda desde o 25 de Abril, apenas superada pela de 1975. Em 2013, o desemprego atingiu um máximo histórico superior a 17%. Nenhum Governo responsável, em nenhuma democracia europeia, poderia ignorar esta realidade e deixar de agir.

O aumento de impostos, tantas vezes citado como acusação, era uma obrigação contratual herdada, inscrita no Memorando assinado pelo próprio PS. Quando o Tribunal Constitucional chumbava medidas previstas nesse programa, o Governo era forçado a encontrar alternativas compensatórias, por vezes mais penosas. Era a lógica do próprio programa negociado pelo PS. Sem compensação, novo resgate! E esse seria de consequências muito mais graves e duradouras.

A retoma económica começou em 2014, com a saída limpa da Troika. Sem necessidade de segundo resgate. Os próprios credores internacionais reconheceram o cumprimento exemplar do programa. Esse é o contexto que os comentários raivosos do Facebook ignoram olimpicamente.

Chegamos à frase que mais inflamou os comentários. A sugestão de Passos Coelho aos professores desempregados para olharem para o mercado de língua portuguesa,  Angola, Brasil, como alternativa de emprego.

A declaração foi feita em dezembro de 2011, numa entrevista ao Correio da Manhã, em resposta a uma pergunta direta sobre os professores excedentários. O país tinha acabado de entrar numa recessão histórica. O desemprego disparava. A demografia decrescente de Portugal gerava, estruturalmente, excedente de professores que o sistema privado também não conseguia absorver. Neste quadro, indicar o vasto mercado lusófono como alternativa não foi uma provocação, foi uma leitura honesta e responsável de uma realidade que o próprio Governo socialista anterior tinha criado.

Mas o momento verdadeiramente revelador veio depois. Em junho de 2016, em Paris, António Costa, já como Primeiro-Ministro socialista, disse o seguinte. Cito:

"Isto é obviamente muito importante para a difusão da nossa língua. É também uma oportunidade de trabalho para muitos professores de português que, por via das alterações demográficas, hoje não têm trabalho em Portugal."

Identifique as diferenças de substância entre as duas afirmações. Eu não consigo encontrá-las. O que encontro é uma diferença de reação. A mesma ideia, dita pelo mesmo tipo de pessoa em situação análoga, gerou escândalo em 2011 e silêncio em 2016. Os que em 2011 ergueram barricadas contra Passos aplaudiram Costa em silêncio. Os que defenderam Passos criticaram Costa.

Esta inversão acrobática é, em si mesma, a confissão mais clara de que o escândalo de 2011 nunca foi genuíno. Foi política. E quem ainda hoje repete o "mandou-nos emigrar" como argumento intelectual sério está simplesmente a papaguear uma narrativa, sem ter feito o mais básico dos exercícios. Ir verificar os factos.

Não me preocupa que haja pessoas com opiniões críticas sobre Pedro Passos Coelho ou sobre as políticas de austeridade. O debate legítimo sobre as consequências sociais desse período é necessário e bem-vindo. O que me preocupa, e muito, é ver pessoas com responsabilidade educativa a reproduzir slogans que não resistem a cinco minutos de pesquisa básica.

Um professor que não consiga, com distanciamento ideológico, olhar para a complexidade do problema com que Pedro Passos Coelho se deparou em 2011, um país falido, com um programa de ajustamento negociado pelo Governo anterior, numa Europa em crise, é alguém que, com todo o respeito, precisa de um refresh. Não político. Intelectual.

A escola que dirijo promove exatamente o oposto disso. Promovemos o encontro com figuras de todos os quadrantes políticos porque acreditamos que o pensamento crítico se constrói com informação, com confronto de ideias, com contexto histórico, não com ressentimentos mal digeridos e fidelidades tribais.

Para quem queira ir além dos comentários de Facebook, deixo algumas referências:

As bancarrotas e o impacto do PS na economia

O programa oculto do PS e a Troika

Economia de Portugal — Wikipedia

A economia portuguesa antes, durante e depois da Troika

O resgate em datas

Passos Coelho sugere emigração a professores desempregados

Há diferenças entre o que disse Costa e o que disse Passos?

Intervenção de Passos na conferência Portugal Pós-Troika

 

Termino como comecei. A visita de Pedro Passos Coelho à nossa escola foi um momento de aprendizagem para os alunos e os comentários que gerou foram, à sua maneira, também um momento de aprendizagem. Para mim, pelo menos. Confirmaram que a literacia histórica e a honestidade intelectual continuam a ser as batalhas mais importantes que travamos, todos os dias, dentro de uma escola.

 

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