Mensagens

A inclusão como fantasma e a desistência deliberada

Imagem
  Há um fantasma que percorre os corredores da escola pública portuguesa. É um fantasma mais subtil, mais perverso. Veste-se de linguagem técnica, de siglas novas e brilhantes, de promessas de “operacionalização efetiva”. Chama-se, ironicamente, inclusão. E assombra não os corredores desertos, mas exatamente o contrário. As salas cheias, os professores exaustos, as crianças que esperam um apoio que nunca chega a horas. A escola pública portuguesa, essa que deveria ser o derradeiro elevador social, transformou-se num laboratório de ilusões burocráticas. Sob a capa de uma pretensa “educação inclusiva”, os vários ministros têm vindo a produzir decretos-lei que, de tão distantes da realidade do terreno, parecem redigidos numa dimensão paralela àquela em que vivem os professores, os alunos e as famílias todos os dias. Nesta última revisão, enquanto os gabinetes ministeriais se congratulam com a densificação de conceitos e com a criação de novas estruturas, o Sistema Nacional de Apoio à ...

O Estado é deles, o povo é que paga

Imagem
  Temos assistido, um pouco por todo o mundo ocidental, a um fenómeno curioso, mas previsível, a incapacidade crónica dos partidos do sistema, sejam eles de que quadrante forem, em aceitar a erosão da sua própria credibilidade e em fazer uma autocrítica séria sobre o que fizeram, ou deixaram de fazer, com o poder que lhes foi confiado. Olhemos para a Argentina, para a Itália, para a França, para os Países Baixos. Nestes países, as populações, exaustas de estagnação económica e de promessas falhadas, foram procurar noutro lado o que os partidos tradicionais deixaram de lhes dar. E o que fazem, em resposta, os partidos que sempre governaram? Em vez de perguntarem onde falharam, preferem rotular o voto popular de erro, de ignorância ou de perigo para a democracia. Este texto não é sobre esquerda contra direita. É sobre um paradigma que atravessa todo o espectro partidário. O de organizações que se habituaram a tratar o Estado como território próprio, umas por conivência ativa, outras ...

"Tenho sempre comigo a chave do carro no bolso"

Imagem
  Há uma frase que aprendi com uma pessoa que estimo, uso com frequência e orgulho: "Tenho sempre comigo a chave do carro no bolso." Não é uma frase sobre carros. É sobre liberdade. Significa que o meu sustento depende do meu trabalho, da minha competência e do meu esforço, nunca da boa vontade de um chefe de gabinete, de um presidente de concelhia ou de um secretário-geral. Significa que, se um dia me disserem para me calar, eu ponho a chave na ignição e vou-me embora. Ninguém me deu o que tenho. Ninguém pode, por isso, tirar-me a voz. Deparo-me com muita gente que gostava de dizer o mesmo. Mas não pode. E o motivo é um problema estrutural, crónico, que atravessa décadas e cores partidárias. A dependência de milhares de pessoas, muitas delas insuspeitas, em relação à boa vontade de estruturas partidárias para conseguirem emprego, contrato, promoção ou simplesmente não perder o que já têm. Isto não é impressão, nem amargura de café. Tem nome na ciência política e é estudado h...
Imagem
  Portugal lidera, com uma folga que deveria envergonhar qualquer decisor político, o ranking europeu de tempo semanal passado em contexto escolar. Com 38 horas semanais para crianças entre os seis e os 11 anos, largamente acima da média comunitária de 31,5 horas, somos o país que melhor sabe "estacionar" os seus filhos. A conclusão é de uma clarividência incómoda e, para quem ainda preserva alguma lucidez pedagógica, profundamente alarmante. Mas antes de continuar, é indispensável dizer o que esta estatística esconde, e que a torna ainda mais grave do que parece à primeira leitura. "Contexto escolar" não significa aulas. Não significa instrução, não significa aprendizagem estruturada, não significa sequer atividade pedagógica supervisionada com qualidade. Significa simplesmente que a criança está dentro do recinto escolar. E aí reside o engano que convém a todos, ao Estado, aos municípios, manter na sombra. Contamos como "tempo escolar" horas de ATL, hora...

O Estado que não cumpre a palavra dada

Imagem
  Há uma imagem que resume o país! Em pleno Verão de 2026, com os reservatórios de Almada a esvaziarem-se semana após semana até chegarem a cerca de 10% da sua capacidade, foi preciso que os moradores da Costa da Caparica, da Sobreda e dos Capuchos passassem a organizar a vida à volta de baldes e garrafões, e que mais de quatro mil pessoas assinassem uma petição, para que a Câmara Municipal ativasse, só a 6 de julho, um plano de contingência que já devia estar a funcionar há semanas. A autarquia, liderada por Inês de Medeiros, garante que o problema não foi de fugas nem de infraestruturas, foi, disse, a procura a superar a água que os furos conseguem captar. Pode ser verdade. O que não deixa de ser verdade também é que, entre o momento em que os níveis começaram a cair e o momento em que alguém decidiu agir, houve gente sem água para tomar banho, cozinhar ou lavar a loiça, durante semanas, num concelho da área metropolitana de Lisboa, no ano de 2026. Não em nenhuma aldeia esquecida...

A Fraude que Ninguém Quer Ver

Imagem
Há uma ideia que se repete de forma muito conveniente que circula nos corredores do poder e nos órgãos de comunicação social mais alinhados com o establishment. A ideia de que o grande problema do Estado Social português são os "subsidiodependentes". Aquele português pobre que frauda a Segurança Social para receber mais uns trocos. Faz-se deste espantalho o inimigo público número um da sustentabilidade das finanças públicas. Convoca-se a moral, a equidade, a responsabilidade. Mas quando se olha para os números reais, percebe-se que este discurso é, na melhor das hipóteses, uma distração conveniente. Na pior, é cumplicidade organizada. Vejamos os factos. O Governo português apresentou, com grande alarido mediático, um valor de 159 milhões de euros em pagamentos indevidos de apoios sociais ao longo de ano e meio, cerca de 106 milhões por ano. Destes, nem sequer foi especificada que percentagem constitui fraude intencional e não simplesmente erro administrativo ou mudança de cir...

O Dinheiro do Estado É Nosso

Imagem
Existe uma ilusão confortável que atravessa décadas de discurso político, a ilusão de que o Estado é uma entidade generosa, capaz de investir, subsidiar, apoiar e distribuir riqueza como se dispusesse de recursos próprios, nascidos do nada ou gerados pela simples virtude de governar. Esta ilusão é politicamente conveniente, mas economicamente desonesta. A verdade é mais simples e mais exigente. O Estado não tem um único euro que não lhe tenha sido entregue, voluntária ou coercivamente, pelos cidadãos que trabalham, produzem e poupam. Quando um governo anuncia que "vai investir mil milhões em habitação" ou que "subsidiou o setor agrícola com duzentos milhões", está a fazer uma afirmação que omite a parte essencial da frase. Vai fazê-lo com dinheiro que primeiro “retirou” de quem trabalha. Esta não é uma posição ideológica de direita ou de esquerda. É uma questão de honestidade aritmética. Luís XIV de França, o Rei Sol, terá dito a famosa frase "L'État, c...