Mensagens

A hipocrisia do imobilismo e o puzzle dos espaços

Imagem
Para quem anda nestas lides da Educação há tempo suficiente para ver o carrossel das reformas girar e voltar ao mesmo sítio, o anúncio da fusão do 1.º e 2.º ciclos do Ensino Básico para 2027 não traz o choque da novidade, mas o peso da inevitabilidade. Vamos ser claros! Isto não é um coelho tirado da cartola. Já estava no programa do Governo e recupera, com atraso, a visão estrutural do estudo do Conselho Nacional de Educação de 2008. Mas o que me diverte, ou irritaria, se eu já não tivesse a carapaça dura de anos de sala de aula, é ver a reação pavloviana de certos setores, nomeadamente de alguns arautos do imobilismo, que se apressaram a erguer barricadas. O argumento predileto? Gritam aos céus que “não há evidências robustas de que a fusão melhore as aprendizagens”. Meus senhores, sejamos sérios. Ninguém prometeu melhores aprendizagens com esta medida. O Ministro Fernando Alexandre nunca veio vender a banha da cobra de que esta medida era a pedra filosofal para o sucesso escolar ou ...

O Estado como coutada: a corrupção do espírito e do mérito

Imagem
  Diz-se que a fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia. No Portugal de 2026, a "comedoria" parece ter-se transformado no prato principal de uma classe política que, independentemente da cor da gravata, insiste em confundir o Orçamento do Estado com uma herança de família. Os números da Transparência Internacional são apenas o termómetro de uma doença que já todos conhecemos. A queda para a 46.ª posição no Índice de Perceção da Corrupção não é um acidente de percurso, é o resultado de uma cultura de favores que se instalou nas fundações das nossas instituições. Assistimos, quase impávidos, a um desmantelamento da ética por parte daqueles que mais apregoam a defesa do interesse público. O caso da nomeação de Frederico Perestrelo Pinto para o Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado é de um simbolismo atroz. Não discuto as notas académicas de 17 valores ou o mestrado na Bocconi. O que me causa agrura é a cegueira ética de quem acha normal que o irmão do chefe de gabine...

Dia 8 de Fevereiro: proteger a democracia ou salvar o status quo?

Imagem
  A aproximação ao dia 8 de fevereiro coloca-nos perante um cenário que exige muito mais do que a habitual espuma dos dias ou a repetição acrítica de slogans a que nos habituaram. O que está verdadeiramente em causa nesta eleição disputada num clima de alta tensão entre André Ventura e António José Seguro transcende as próprias figuras e é um teste à maturidade do nosso sistema democrático e à capacidade do eleitorado de separar o trigo do joio no meio de um ruído ensurdecedor. Nas últimas semanas assistimos a um debate público sequestrado por uma chuva de adjetivos onde de um lado temos a colagem de epítetos como fascista ou xenófobo e do outro a retórica antissistema. Mas objetivamente o que é que esta guerra de rótulos produziu? As sondagens e a perceção pública indicam que a estratégia de diabolização usada até à exaustão pode ter esgotado o seu prazo de validade. Ao invés de afastar o eleitorado parece ter cristalizado posições e tornado a disputa muito mais renhida do que as ...

A ilusão do preço e a realidade da oficina: uma escolha de racionalidade

Imagem
Toyota                                                                              Lexus Não se iludam. Compreendo perfeitamente quem opta pelas marcas europeias. Muitas vezes, o preço de aquisição é mais convidativo e o design tem aquele peso histórico que todos respeitamos. É legítimo querer poupar no momento da compra. Contudo, estamos a ser enganados por uma matemática de curto prazo: o que poupamos no stand, acabamos demasiadas vezes a entregar, com juros, na oficina. É urgente distinguir o valor da etiqueta do custo real da vida útil do automóvel. E os factos, caros leitores, não perdoam. Basta analisar com frieza os relatórios da J.D. Power e da Consumer Reports dos últimos seis anos. Não são opiniões, são dados estatísticos massivos que nos mostram uma realidade sistémica: A consistênc...
Imagem
  O estudo de Eugénio Rosa é um murro na mesa que o país insiste em ignorar. Entre 2013 e 2026, a despesa pública em educação, do básico ao superior, desce de 5,2% para 3,6% do PIB, uma quebra de 31% num período em que todos repetem, liturgicamente, que “a educação é prioridade estratégica”. Não é. Uma prioridade não se corta em quase um terço em treze anos, sobretudo quando o mesmo estudo mostra que Portugal é o país da União Europeia com maior peso de trabalhadores com apenas o ensino básico e em que, em 2024, a percentagem de empregados com esse nível de escolaridade era ainda o dobro da média europeia. A mensagem é cristalina. O país acomodou-se a uma economia de baixos salários e baixa qualificação e, coerentemente, desenha um orçamento da educação à medida dessa ambição encolhida.​ A brutalidade dos números desmonta qualquer narrativa de inevitabilidade orçamental. Se em 2026 o Estado destinasse à educação os mesmos 5,2% do PIB de 2013, haveria mais 5,1 mil milhões de euros d...

Ministro Da Educação - A virtude da ação e o pecado da palavra!

Imagem
  Recebi a notícia com a perplexidade de quem, infelizmente, já viu de tudo na Educação, mas que continua a ser surpreendido pela inesgotável criatividade burocrática do Ministério. A reação nas escolas oscila entre a incredulidade e a indignação perante mais uma prova de desconexão. Quero que fique claro! Estou sempre do lado da solução. O que não invalida, antes obriga, que critique aquilo que acho ser, mais uma vez, uma péssima mensagem política enviada às escolas. O Ministério podia perfeitamente ter dito o óbvio e o sensato. Poderia ter dito que iria aproveitar um sistema já instalado de sumários em plataformas internas e que, como se sabe, a esmagadora maioria dos professores cumpre com rigor, podia ter dito que pretendia aproximar ao máximo o número de alunos sem aulas e que, para isso, contava com a colaboração dos docentes para manter o rigor habitual nesta tarefa diária e sagrada. Se a mensagem fosse esta, de parceria e reconhecimento, teria a classe do seu lado. Mas pref...

Ventura é o filho legítimo de 50 anos de fracasso!

Imagem
  Os resultados das eleições presidenciais trazem-nos uma leitura que vai muito para além da simples aritmética eleitoral, embora os números sejam, como sempre, teimosos. Se olharmos para os gráficos, percebemos que António José Seguro pintou o mapa de cor-de-rosa, vencendo em 18 dos 20 distritos. No entanto, esta vitória na primeira volta esconde uma realidade que não pode ser ignorada: a direita, no seu conjunto, tem a maioria. Se somarmos os votos de André Ventura, Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes, atingimos os 50,8%, contra os 35,5% da soma dos candidatos à esquerda. O que falhou então? A esquerda, que parecia fragmentada com vários candidatos, acabou por ser pragmática e reunir os votos em Seguro, que obteve mais 312 mil votos do que o próprio PS nas legislativas. A direita, por sua vez, dispersou-se. Não critico esta dispersão. Em eleições presidenciais, o voto deve ser livre e não arregimentado aos partidos. É salutar que assim seja, pois, o Presidente não é um líde...