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A aura que se desgasta: uma Carta Aberta a Fernando Alexandre

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  Há um ano e meio, Fernando Alexandre entrou para a pasta da Educação com algo que poucos ministros trazem consigo: crédito. Não apenas político, crédito profissional, humano, quase afetivo, da parte de uma classe docente historicamente desconfiada de quem chega de fora do sistema. Um economista, professor universitário, que reconheceu o tempo de serviço negado aos professores durante anos de congelamento, que falou da profissão como precisando de ser “mais justa, mais transparente e valorizada”, que teve a coragem de pegar numa reforma do Ministério da Educação que toda a gente dizia ser necessária e ninguém tinha estômago para fazer. Essa aura existiu. E existiu, sobretudo, transversalmente, da direita à esquerda, dos sindicatos mais reformistas aos mais combativos. Não é pouco, num país onde a Educação costuma ser campo de batalha permanente. Este texto não pretende, por isso, juntar-se ao coro fácil de quem critica por criticar. O caminho que Fernando Alexandre escolheu, mexer...

A eletrificação forçada e o fosso que ninguém quer discutir

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  Antes de mais importa referir que o aquecimento global de origem humana não é uma "narrativa". Este texto não o questiona. Questiona, isso sim, se a via escolhida pela Europa para descarbonizar o transporte, a eletrificação obrigatória e acelerada da frota automóvel, é tão limpa, tão justa e tão eficaz quanto o discurso oficial sugere. São debates diferentes, e vale a pena não os confundir. É comum ver-se citado, como eu também o fiz,  para sustentar que um elétrico pode poluir mais do que um diesel, um estudo do instituto alemão Ifo, assinado por Hans-Werner Sinn e colegas em 2019. Convém dizer o que lhe aconteceu depois de publicado. Foi rejeitado por praticamente toda a comunidade científica e industrial alemã.  Mas isso não significa que o debate sobre a pegada de carbono dos elétricos esteja encerrado a favor da indústria em qualquer cenário, significa, isso sim, que este exemplo específico, tantas vezes repetido em artigos de opinião, é um mau exemplo. A pegada de...

A inclusão como fantasma e a desistência deliberada

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  Há um fantasma que percorre os corredores da escola pública portuguesa. É um fantasma mais subtil, mais perverso. Veste-se de linguagem técnica, de siglas novas e brilhantes, de promessas de “operacionalização efetiva”. Chama-se, ironicamente, inclusão. E assombra não os corredores desertos, mas exatamente o contrário. As salas cheias, os professores exaustos, as crianças que esperam um apoio que nunca chega a horas. A escola pública portuguesa, essa que deveria ser o derradeiro elevador social, transformou-se num laboratório de ilusões burocráticas. Sob a capa de uma pretensa “educação inclusiva”, os vários ministros têm vindo a produzir decretos-lei que, de tão distantes da realidade do terreno, parecem redigidos numa dimensão paralela àquela em que vivem os professores, os alunos e as famílias todos os dias. Nesta última revisão, enquanto os gabinetes ministeriais se congratulam com a densificação de conceitos e com a criação de novas estruturas, o Sistema Nacional de Apoio à ...

O Estado é deles, o povo é que paga

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  Temos assistido, um pouco por todo o mundo ocidental, a um fenómeno curioso, mas previsível, a incapacidade crónica dos partidos do sistema, sejam eles de que quadrante forem, em aceitar a erosão da sua própria credibilidade e em fazer uma autocrítica séria sobre o que fizeram, ou deixaram de fazer, com o poder que lhes foi confiado. Olhemos para a Argentina, para a Itália, para a França, para os Países Baixos. Nestes países, as populações, exaustas de estagnação económica e de promessas falhadas, foram procurar noutro lado o que os partidos tradicionais deixaram de lhes dar. E o que fazem, em resposta, os partidos que sempre governaram? Em vez de perguntarem onde falharam, preferem rotular o voto popular de erro, de ignorância ou de perigo para a democracia. Este texto não é sobre esquerda contra direita. É sobre um paradigma que atravessa todo o espectro partidário. O de organizações que se habituaram a tratar o Estado como território próprio, umas por conivência ativa, outras ...

"Tenho sempre comigo a chave do carro no bolso"

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  Há uma frase que aprendi com uma pessoa que estimo, uso com frequência e orgulho: "Tenho sempre comigo a chave do carro no bolso." Não é uma frase sobre carros. É sobre liberdade. Significa que o meu sustento depende do meu trabalho, da minha competência e do meu esforço, nunca da boa vontade de um chefe de gabinete, de um presidente de concelhia ou de um secretário-geral. Significa que, se um dia me disserem para me calar, eu ponho a chave na ignição e vou-me embora. Ninguém me deu o que tenho. Ninguém pode, por isso, tirar-me a voz. Deparo-me com muita gente que gostava de dizer o mesmo. Mas não pode. E o motivo é um problema estrutural, crónico, que atravessa décadas e cores partidárias. A dependência de milhares de pessoas, muitas delas insuspeitas, em relação à boa vontade de estruturas partidárias para conseguirem emprego, contrato, promoção ou simplesmente não perder o que já têm. Isto não é impressão, nem amargura de café. Tem nome na ciência política e é estudado h...
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  Portugal lidera, com uma folga que deveria envergonhar qualquer decisor político, o ranking europeu de tempo semanal passado em contexto escolar. Com 38 horas semanais para crianças entre os seis e os 11 anos, largamente acima da média comunitária de 31,5 horas, somos o país que melhor sabe "estacionar" os seus filhos. A conclusão é de uma clarividência incómoda e, para quem ainda preserva alguma lucidez pedagógica, profundamente alarmante. Mas antes de continuar, é indispensável dizer o que esta estatística esconde, e que a torna ainda mais grave do que parece à primeira leitura. "Contexto escolar" não significa aulas. Não significa instrução, não significa aprendizagem estruturada, não significa sequer atividade pedagógica supervisionada com qualidade. Significa simplesmente que a criança está dentro do recinto escolar. E aí reside o engano que convém a todos, ao Estado, aos municípios, manter na sombra. Contamos como "tempo escolar" horas de ATL, hora...

O Estado que não cumpre a palavra dada

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  Há uma imagem que resume o país! Em pleno Verão de 2026, com os reservatórios de Almada a esvaziarem-se semana após semana até chegarem a cerca de 10% da sua capacidade, foi preciso que os moradores da Costa da Caparica, da Sobreda e dos Capuchos passassem a organizar a vida à volta de baldes e garrafões, e que mais de quatro mil pessoas assinassem uma petição, para que a Câmara Municipal ativasse, só a 6 de julho, um plano de contingência que já devia estar a funcionar há semanas. A autarquia, liderada por Inês de Medeiros, garante que o problema não foi de fugas nem de infraestruturas, foi, disse, a procura a superar a água que os furos conseguem captar. Pode ser verdade. O que não deixa de ser verdade também é que, entre o momento em que os níveis começaram a cair e o momento em que alguém decidiu agir, houve gente sem água para tomar banho, cozinhar ou lavar a loiça, durante semanas, num concelho da área metropolitana de Lisboa, no ano de 2026. Não em nenhuma aldeia esquecida...