Uma reforma chumbada, uma vergonha por explicar
Há décadas que Portugal carrega um paradoxo incómodo. Tem uma das legislações laborais formalmente mais rígidas da Europa e, ao mesmo tempo, um dos mercados de trabalho mais segmentados, com salários entre os mais baixos da União Europeia e uma produtividade que teima em não convergir com a média dos seus parceiros. A rigidez nunca protegeu ninguém. Fragmentou o mercado entre quem já estava dentro e quem ficou de fora, deixando contratos sem fim para uns e precariedade endémica para outros, sobretudo jovens e mulheres. E, sexta-feira passada, este país teve a oportunidade de mudar isso. Desperdiçou-a. Porque foi isto que aconteceu, e convém dizê-lo sem rodeios. A reforma “Trabalho XXI”, que nasceu de nove meses de negociação na Concertação Social, cinquenta e oito reuniões, mais de duzentas horas de trabalho, foi chumbada no Parlamento. Votaram a favor apenas o PSD, o CDS-PP e a Iniciativa Liberal. Contra, ficaram o Chega e toda a esquerda parlamentar, PS, Livre, PCP, Bloco de Esquerda...