Mensagens

Trabalhar para continuar pobre: o mito da poupança num país de salários de miséria

Imagem
  Toda a gente concorda: os portugueses não estão preparados para a reforma. O novo Barómetro "Preparação da Reforma", da Católica-Lisbon em parceria com o Doutor Finanças, é devastador nos números. 54% antecipa dificuldades financeiras sérias quando se reformar. 73% não sabe quanto precisa de poupar. 31% não poupa absolutamente nada. A narrativa que se segue a estes dados é quase sempre a mesma: falta de literacia financeira, falta de disciplina, falta de planeamento. A solução proposta? Mais educação financeira. Mais PPRs. Mais simuladores online. Mas há uma pergunta que raramente se faz em voz alta. E se o problema não for que os portugueses não querem poupar, mas sim que não podem? Quando se fala de salários em Portugal, o número que aparece nos títulos é sempre o mesmo: 1.694 euros brutos mensais em 2025, segundo o INE. Soa razoável. Soa até otimista. É uma ilusão. O salário mediano, aquele que representa o trabalhador do meio, nem o mais pobre nem o mais rico, situa-se ...

António Costa - O Cinismo de Quem Criou o Problema

Imagem
  Há momentos em que a audácia política choca de tal forma com os factos que só pode ser interpretada como um cálculo frio sobre a memória coletiva, ou a falta dela. Num discurso perante o Comité Económico e Social Europeu em Bruxelas, António Costa, atual presidente do Conselho Europeu e ex-primeiro-ministro de Portugal durante oito anos, declarou ser "inaceitável" que jovens portugueses tenham de gastar "100% do salário" durante duas ou três décadas para conseguir comprar uma casa. Uma afirmação verdadeira. Uma afirmação que ele deveria ter feito quando tinha poder para mudar o problema. Uma afirmação que, dita por ele, no papel que ocupa agora, é um insulto a cada português que viveu os anos da sua governação. Comecemos pelo essencial. Os dados. Desde 2015, exatamente o ano em que António Costa chegou ao poder, os preços das casas em Portugal subiram 180%, a segunda maior valorização de toda a União Europeia segundo o Eurostat. Não é coincidência de calendário. É...

A escola portuguesa: entre a promessa e o fracasso

Imagem
  Desde o 25 de Abril, a escola portuguesa vive uma promessa contraditória. Ser simultaneamente mais igual, mais democrática e mais exigente. Meio século depois, essa promessa continua por cumprir. O sistema educativo entre o 1.º e o 12.º ano evoluiu para um modelo que certifica mais do que qualifica, que diploma sem verdadeiramente formar, e que, em nome de uma certa ideia de inclusão, foi gradualmente esvaziando o sentido de responsabilidade de alunos, famílias e da própria escola. Esta não é uma falha imputável apenas à esquerda ou à direita. É o resultado de décadas de opções políticas convergentes que, sob diferentes retóricas, produziram o mesmo efeito. Uma escola de mínimos. Desde 1976, a educação portuguesa foi administrada por governos minoritários, coligações instáveis e pactos de legislatura curta. O PS liderou o executivo por mais de duas décadas, o PSD por cerca de oito a nove anos, muitas vezes em coligação. Nenhum dos dois campos construiu uma visão de longo prazo pa...

A Memória Curta e o Sectarismo Cómodo

Imagem
  No passado dia 6 de maio, o Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais, na Escola Secundária António Damásio, teve a honra de receber a visita do ex-Primeiro-Ministro Dr. Pedro Passos Coelho. A ocasião inseria-se na disciplina de opção de Ciência Política do 12.º ano, uma iniciativa que temos orgulho em promover e que tem trazido à nossa escola políticos de todos os quadrantes político-partidários, num espírito de abertura, pluralismo e estímulo ao pensamento crítico. O tema debatido foi "Portugal 2040: que papel para os jovens na construção do País". Um tema sério, pertinente,  que merecia ser recebido com a seriedade que lhe é devida. Publiquei a informação na minha página de Facebook. E comecei a ler os comentários. Não foi uma leitura animadora. Entre os vários comentários que surgiram, destaco alguns, pela sua representatividade: "Será que Passos Coelho mandou os jovens emigrar?" "Educação aberta ao mundo..." "Bem... Já nos mandara...

O espelho partido dos partidos tradicionais

Imagem
Na cidade da Praia, Cabo Verde, Hugo Soares disse em voz alta aquilo que muitos dirigentes do PSD dizem em privado. Quem saiu do partido para o Chega “nunca teve espaço por falta de qualidade”. A frase é curta, limpa e conveniente. Serve para separar os que ficaram dos que saíram. Uns ficam do lado dos bons. Os outros passam para o lado dos fracos, dos ressentidos, dos incapazes. Mas, dita em Cabo Verde, numa conferência sobre democracia, a frase deixa de soar a desabafo e passa a soar a doutrina. Fica a ideia de que há gente que merece ter lugar no sistema e gente que não merece. Hugo Soares acrescentou outra tese. O populismo combate-se governando bem e pagando melhor aos políticos. Segundo ele, os políticos são hoje mal pagos, e só salários mais altos atrairiam os melhores. É uma ideia antiga. A política como mercado de talentos. Como se o problema principal estivesse na folha salarial e não nos mecanismos de escolha, nas redes de favores ou nos aparelhos partidários. A questão não ...

Vouchers holandeses para a Sertã? A geografia mata a liberdade de escolha

Imagem
  Escrevo este artigo porque me deparei, por estes dias, com um texto sobre o sistema de vouchers escolares dos Países Baixos, publicado pelo Instituto +Liberdade, que propõe importar essa experiência para Portugal como solução para os nossos problemas educativos. É uma peça bem-intencionada, que aponta problemas reais, mas que, ao ignorar o mapa português, cai no erro habitual de quem faz política de gabinete sem pisar o terreno. A liberdade de escolha soa bem em conferências, mas torna-se retórica vazia quando só existe para quem vive entre o Marquês e a Boavista, enquanto alunos de Seia, Sertã, Bragança ou Monchique olham para um horizonte de uma única escola pública ao alcance. O modelo neerlandês funciona num país pequeno, denso, com escolas públicas e privadas espalhadas de forma equilibrada e transportes que encurtam distâncias. Aqui, a mesma ideia esbarra na realidade nua. Lisboa e Porto concentram mais privados do que públicas, com o setor particular a valer cerca de 60% d...

RASI 2025: O silêncio que a escola não aguenta

Imagem
  O RASI de 2025 não é só um relatório de estatísticas, é um documento de exame de consciência e o país recusou-se a abri-lo à luz do dia. Nas escolas portuguesas registaram-se 8.133 ocorrências no ano letivo 2024/2025, mais 14,1 por cento do que no anterior, 5.694 delas com caráter criminal. O que se esconde atrás destes números é um quotidiano de agressões, ameaças, furto, vandalismo, ofensas sexuais e armas que já não cabem nas lógicas de “incidente pontual” com que a opinião pública prefere tranquilizar-se. As ofensas à integridade física somam 2.198 casos, 1.394 dizem respeito a injúrias e ameaças, 931 são furtos, 322 são atos de vandalismo e 182 casos de ofensas sexuais, um número que cresce ano após ano. Em paralelo, o número de situações de uso ou posse de arma nas escolas aumentou 50 por cento, de 76 para 114, em apenas um ano letivo. Se se somar tudo, o que o país tem é uma média de 35 crimes por dia nas escolas durante 164 dias de aulas, o que se traduz em cerca de 50 in...