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RASI 2025: O silêncio que a escola não aguenta

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  O RASI de 2025 não é só um relatório de estatísticas, é um documento de exame de consciência e o país recusou-se a abri-lo à luz do dia. Nas escolas portuguesas registaram-se 8.133 ocorrências no ano letivo 2024/2025, mais 14,1 por cento do que no anterior, 5.694 delas com caráter criminal. O que se esconde atrás destes números é um quotidiano de agressões, ameaças, furto, vandalismo, ofensas sexuais e armas que já não cabem nas lógicas de “incidente pontual” com que a opinião pública prefere tranquilizar-se. As ofensas à integridade física somam 2.198 casos, 1.394 dizem respeito a injúrias e ameaças, 931 são furtos, 322 são atos de vandalismo e 182 casos de ofensas sexuais, um número que cresce ano após ano. Em paralelo, o número de situações de uso ou posse de arma nas escolas aumentou 50 por cento, de 76 para 114, em apenas um ano letivo. Se se somar tudo, o que o país tem é uma média de 35 crimes por dia nas escolas durante 164 dias de aulas, o que se traduz em cerca de 50 in...

Fusão de ciclos. Fé cega ou debate a sério?

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  Há reformas que nascem tortas porque começam pelo fim. E depois há estas, que ainda nem começaram e já parecem condenadas ao velho pecado nacional de confundir decisão com pressa, estudo com propaganda e debate com encenação. A ideia de aproximar o 1.º e o 2.º ciclo pode até fazer sentido. Mas só faz sentido se for tratada como aquilo que é, uma mudança estrutural que mexe com a infância, com a organização da escola, com a formação de professores e com a vida concreta das famílias. O que não faz sentido é fingir que basta alinhar algumas teses importadas, citar meia dúzia de experiências estrangeiras e, de repente, imaginar que a realidade portuguesa se dobra por decreto. É por isso que o estudo agora conhecido do Conselho Nacional de Educação merece ser lido com atenção e sem as habituais birras ideológicas. Não porque apresente uma verdade revelada, mas porque confirma o que muitos já sabiam há anos, o atual 2.º ciclo perdeu identidade, vive entre duas lógicas que nunca casaram...

Da escola do Estado à escola dos Professores

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Por décadas aceitámos, quase com uma resignação fatalista, um sistema em que o Ministério manda em tudo, as direções cumprem o possível e os professores funcionam como mera mão de obra qualificada, mas sem qualquer peso político. É uma realidade que tenho denunciado. Portugal mantém uma das menores taxas de decisões locais na Europa, o que trava qualquer mudança séria na Escola Pública. Ou fingimos reformar por decretos intermináveis, num modus operandi que já conhecemos bem, ou transferimos poder real para quem está nas escolas, com contratos claros e escrutínio público. A lógica de quem conhece o quotidiano escolar diz-nos que um agrupamento poderia ser assumido por um coletivo de professores organizado como entidade sem fins lucrativos. Esse grupo celebraria um contrato de comodato com o Estado e a autarquia para usar edifícios e recursos por períodos de cinco ou sete anos. As lideranças sairiam de eleições abertas à comunidade, com programas pedagógicos e de gestão concretos, onde ...

Portugal sem professores em 2035? É o preço da impunidade e da miséria salarial

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  Este artigo nasce da necessidade de juntos percebermos quais as linhas vermelhas na negociação do novo ECD. Não por mania de cartógrafo institucional, mas porque sem fronteiras claras entre o aceitável e o inaceitável, qualquer diálogo social se transforma em gestão de expectativas em baixa, até à erosão final da escola pública. As projeções oficiais do próprio Ministério da Educação e do CNE sobre falta de professores na próxima década não são um alarme exagerado: são o retrato de um sistema que se aproxima, a passos seguros, de um colapso funcional anunciado. Defendi, em várias intervenções públicas e textos anteriores, que nenhuma reforma faz sentido sem três pilares inseparáveis. Autoridade pedagógica reconhecida e protegida. Desenvolvimento profissional sério e contextualizado. Estrutura de carreira em dez escalões com remuneração condigna para uma profissão de alta qualificação. Sem eles, o sistema educativo português ruma ao colapso que os relatórios do Ministério da Educa...

A escola como tribunal: como o Estatuto do Aluno cria impunidade e mata a autoridade pedagógica

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 Estamos a assistir à desmontagem silenciosa, mas meticulosa, do último reduto que ainda segurava a escola pública de pé. A autoridade pedagógica! Em nome de uma retórica doce de “inclusão”, “flexibilidade” e “aprendizagens essenciais”, ergueu-se um edifício jurídico que parece proteger todos, mas que, na prática, não protege quem ensina nem quem quer aprender. A indisciplina deixou de ser um acaso incómodo para ser o regime normal de funcionamento de demasiadas escolas. As salas transformaram-se em espaços onde meia dúzia decide, impunemente, que a aula é um palco de entretenimento e o resto da turma que se desenrasque. O ruído substituiu a atenção, a intimidação substituiu o respeito, e os alunos que querem aprender vivem sequestrados pelos que descobriram que o sistema não lhes exige praticamente nada. A isto soma‑se um padrão social bem conhecido. Pais que aparecem na escola não para assumir a responsabilidade dos filhos, mas para exigir explicações, contestar sanções, pression...

A escola como prisão, Verão a dentro

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  Não dá para engolir esta teimosia do PSD em silêncio. Na Comissão de Educação e Ciência, o grupo parlamentar social-democrata, que sustenta o Governo, reiterou a posição executiva e recusou de caras qualquer alteração ao calendário escolar do pré-escolar e do 1.º ciclo, que obriga as crianças a arrastarem-se até 30 de junho. Não se pode agitar evidências científicas quando convém, para sustentar algumas medidas, e ignorá-la quando a evidências contrariam a decisão. Onde estão os estudos que justificam manter os miúdos nas salas a ferver, exaustos e sem motivação? Já escrevi sobre isto na CNN Portugal, no artigo “Calendário escolar: quando a escola se torna prisão”, e regresso ao tema porque a hipocrisia transborda. O PSD ignora o que a psicologia do desenvolvimento infantil prova há décadas. O Conselho Nacional de Educação, no parecer de 2017 sobre organização do tempo escolar, deixou claro que mais tempo escolar não equivale a melhor aprendizagem; pelo contrário, gera saturação,...

Os pais das crianças sem limites- Alberto Veronesi

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  A caneta acaba no silêncio de uma sala onde a autoridade foi sitiada. Antigamente o "não quero queixas da professora" era o selo de uma aliança sagrada entre casa e escola. Hoje a escola virou um tribunal de pequena instância onde o veredito é ditado por mensagens de telemóvel antes do toque de entrada.   Os pais demitidos da função de educadores assumem o papel de advogados de acusação. Transformam o erro do filho numa falha do mestre e o limite num atentado pessoal. Somos meros bonecos nas mãos de quem exige ser servido enquanto o respeito se dissolve em revisões de provas, exigências de notas e recursos de sanções disciplinares. Neste tribunal a que chamam escola o professor está isolado no banco dos réus. Quando a família se torna o primeiro opositor da regra, a educação morre por asfixia. O esgotamento é o eco de um sistema que permitiu que o elevador social fosse sabotado por quem deveria ser o seu primeiro garante.   A sentença está dada e a luz apagou-...