Mensagens

Os pais das crianças sem limites- Alberto Veronesi

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  A caneta acaba no silêncio de uma sala onde a autoridade foi sitiada. Antigamente o "não quero queixas da professora" era o selo de uma aliança sagrada entre casa e escola. Hoje a escola virou um tribunal de pequena instância onde o veredito é ditado por mensagens de telemóvel antes do toque de entrada.   Os pais demitidos da função de educadores assumem o papel de advogados de acusação. Transformam o erro do filho numa falha do mestre e o limite num atentado pessoal. Somos meros bonecos nas mãos de quem exige ser servido enquanto o respeito se dissolve em revisões de provas, exigências de notas e recursos de sanções disciplinares. Neste tribunal a que chamam escola o professor está isolado no banco dos réus. Quando a família se torna o primeiro opositor da regra, a educação morre por asfixia. O esgotamento é o eco de um sistema que permitiu que o elevador social fosse sabotado por quem deveria ser o seu primeiro garante.   A sentença está dada e a luz apagou-...

O crepúsculo da razão e a nova inquisição identitária

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  Caminhamos a passos largos para um abismo civilizacional onde a narrativa substituiu o facto e o dogma identitário atropelou a ciência mais elementar. O que hoje designamos por wokismo não é mais do que uma deriva negacionista e autodestrutiva da nossa cultura que se infiltra nas universidades e no debate público com a subtileza de uma peste silenciosa. Esta ideologia pretende nada menos do que arrasar os fundamentos racionais e éticos da modernidade europeia em nome de uma suposta justiça social que de libertadora nada tem. É inegável que assistimos a uma tentativa deliberada de reescrever a História ao sabor das preocupações do momento ignorando o espírito da época e a mentalidade de quem nos precedeu. Querem impor-nos uma autoflagelação constante pelos erros do passado como se a escravatura ou o imperialismo fossem males exclusivos do Ocidente. Trata-se de uma falácia sem fronteiras que ignora as chacinas de Gengis Khan ou o tráfico turco-árabe para focar apenas no fardo do ho...

A hipocrisia do imobilismo e o puzzle dos espaços

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Para quem anda nestas lides da Educação há tempo suficiente para ver o carrossel das reformas girar e voltar ao mesmo sítio, o anúncio da fusão do 1.º e 2.º ciclos do Ensino Básico para 2027 não traz o choque da novidade, mas o peso da inevitabilidade. Vamos ser claros! Isto não é um coelho tirado da cartola. Já estava no programa do Governo e recupera, com atraso, a visão estrutural do estudo do Conselho Nacional de Educação de 2008. Mas o que me diverte, ou irritaria, se eu já não tivesse a carapaça dura de anos de sala de aula, é ver a reação pavloviana de certos setores, nomeadamente de alguns arautos do imobilismo, que se apressaram a erguer barricadas. O argumento predileto? Gritam aos céus que “não há evidências robustas de que a fusão melhore as aprendizagens”. Meus senhores, sejamos sérios. Ninguém prometeu melhores aprendizagens com esta medida. O Ministro Fernando Alexandre nunca veio vender a banha da cobra de que esta medida era a pedra filosofal para o sucesso escolar ou ...

O Estado como coutada: a corrupção do espírito e do mérito

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  Diz-se que a fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia. No Portugal de 2026, a "comedoria" parece ter-se transformado no prato principal de uma classe política que, independentemente da cor da gravata, insiste em confundir o Orçamento do Estado com uma herança de família. Os números da Transparência Internacional são apenas o termómetro de uma doença que já todos conhecemos. A queda para a 46.ª posição no Índice de Perceção da Corrupção não é um acidente de percurso, é o resultado de uma cultura de favores que se instalou nas fundações das nossas instituições. Assistimos, quase impávidos, a um desmantelamento da ética por parte daqueles que mais apregoam a defesa do interesse público. O caso da nomeação de Frederico Perestrelo Pinto para o Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado é de um simbolismo atroz. Não discuto as notas académicas de 17 valores ou o mestrado na Bocconi. O que me causa agrura é a cegueira ética de quem acha normal que o irmão do chefe de gabine...

Dia 8 de Fevereiro: proteger a democracia ou salvar o status quo?

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  A aproximação ao dia 8 de fevereiro coloca-nos perante um cenário que exige muito mais do que a habitual espuma dos dias ou a repetição acrítica de slogans a que nos habituaram. O que está verdadeiramente em causa nesta eleição disputada num clima de alta tensão entre André Ventura e António José Seguro transcende as próprias figuras e é um teste à maturidade do nosso sistema democrático e à capacidade do eleitorado de separar o trigo do joio no meio de um ruído ensurdecedor. Nas últimas semanas assistimos a um debate público sequestrado por uma chuva de adjetivos onde de um lado temos a colagem de epítetos como fascista ou xenófobo e do outro a retórica antissistema. Mas objetivamente o que é que esta guerra de rótulos produziu? As sondagens e a perceção pública indicam que a estratégia de diabolização usada até à exaustão pode ter esgotado o seu prazo de validade. Ao invés de afastar o eleitorado parece ter cristalizado posições e tornado a disputa muito mais renhida do que as ...

A ilusão do preço e a realidade da oficina: uma escolha de racionalidade

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Toyota                                                                              Lexus Não se iludam. Compreendo perfeitamente quem opta pelas marcas europeias. Muitas vezes, o preço de aquisição é mais convidativo e o design tem aquele peso histórico que todos respeitamos. É legítimo querer poupar no momento da compra. Contudo, estamos a ser enganados por uma matemática de curto prazo: o que poupamos no stand, acabamos demasiadas vezes a entregar, com juros, na oficina. É urgente distinguir o valor da etiqueta do custo real da vida útil do automóvel. E os factos, caros leitores, não perdoam. Basta analisar com frieza os relatórios da J.D. Power e da Consumer Reports dos últimos seis anos. Não são opiniões, são dados estatísticos massivos que nos mostram uma realidade sistémica: A consistênc...
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  O estudo de Eugénio Rosa é um murro na mesa que o país insiste em ignorar. Entre 2013 e 2026, a despesa pública em educação, do básico ao superior, desce de 5,2% para 3,6% do PIB, uma quebra de 31% num período em que todos repetem, liturgicamente, que “a educação é prioridade estratégica”. Não é. Uma prioridade não se corta em quase um terço em treze anos, sobretudo quando o mesmo estudo mostra que Portugal é o país da União Europeia com maior peso de trabalhadores com apenas o ensino básico e em que, em 2024, a percentagem de empregados com esse nível de escolaridade era ainda o dobro da média europeia. A mensagem é cristalina. O país acomodou-se a uma economia de baixos salários e baixa qualificação e, coerentemente, desenha um orçamento da educação à medida dessa ambição encolhida.​ A brutalidade dos números desmonta qualquer narrativa de inevitabilidade orçamental. Se em 2026 o Estado destinasse à educação os mesmos 5,2% do PIB de 2013, haveria mais 5,1 mil milhões de euros d...