O Estado como coutada: a corrupção do espírito e do mérito

 


Diz-se que a fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia. No Portugal de 2026, a "comedoria" parece ter-se transformado no prato principal de uma classe política que, independentemente da cor da gravata, insiste em confundir o Orçamento do Estado com uma herança de família. Os números da Transparência Internacional são apenas o termómetro de uma doença que já todos conhecemos. A queda para a 46.ª posição no Índice de Perceção da Corrupção não é um acidente de percurso, é o resultado de uma cultura de favores que se instalou nas fundações das nossas instituições.

Assistimos, quase impávidos, a um desmantelamento da ética por parte daqueles que mais apregoam a defesa do interesse público. O caso da nomeação de Frederico Perestrelo Pinto para o Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado é de um simbolismo atroz. Não discuto as notas académicas de 17 valores ou o mestrado na Bocconi. O que me causa agrura é a cegueira ética de quem acha normal que o irmão do chefe de gabinete do Primeiro-Ministro seja selecionado, por entrevista, para um cargo de 4400 euros mensais. Querem convencer-nos de que, num país de licenciados qualificados que abandonam a profissão para trabalhar numa caixa de supermercado por não terem como pagar um quarto, a escolha recaiu, por mérito puro e cristalino, no familiar mais próximo da cúpula do poder.

Esta narrativa de que "não há intervenção" e de que a vida profissional é "autónoma" esbarra sempre na mesma parede, a falta de pudor. É o mesmo modus operandi que vemos quando adjuntas sem licenciatura saltam de gabinetes de massagem para secretarias de Estado com ordenados de luxo, ou quando autarcas do Chega, mal sentam o traseiro na cadeira do poder em Albufeira, apressam-se a nomear a própria irmã. Viva o PS, viva o Chega, viva o PSD, viva os demais partidos, viva a inépcia de um sistema que se enredou em escândalos e trapalhadas.

O que esta gente não entende, ou finge não entender, é que a corrupção não se mede apenas por malas de dinheiro ou subornos debaixo da mesa. A corrupção mais perigosa é esta, a do "amiguismo" e do "perfil certo para o amigo". É esta rede de clientelismos que retira da equação o mérito e o trabalho, privilegiando a proximidade com a corte. Enquanto o mérito for atropelado pela "cunha", a escola pública e as instituições não passarão de um espaço de entretenimento para as elites.

Não se iludam. O crescimento do fenómeno de André Ventura não é a causa da nossa instabilidade, é o sintoma de 50 anos a falhar constantemente aos portugueses. É o resultado de um Estado que tudo pede e pouco dá. Quando o povo percebe que o "elevador social" só funciona no sentido descendente para quem não tem apelidos sonantes, a revolta torna-se o único caminho.

Ou reagimos a sério ou caímos para não mais nos erguermos. Respeitar o país não passa por declarações vãs de solidariedade, demonstra-se com ações concretas e com a coragem de cortar o cordão umbilical entre o poder e o nepotismo. Enquanto a classe política não tiver a humildade de perceber que o seu papel é servir e não servir-se, continuaremos a alimentar o monstro que dizem querer combater. Teremos, enfim, aquilo que merec

emos.


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