Quando a ausência de limites se torna fatal
Na tarde de terça-feira, em Vagos, um rapaz de 14 anos disparou sobre a mãe, Susana Gravato, vereadora da Câmara Municipal. A notícia chocou o país, não apenas pela brutalidade do ato, mas porque nos obriga a olhar para algo que teimamos em ignorar: estamos a criar uma geração sem limites, sem consequências, sem noção do que é inaceitável.
Este caso extremo não surgiu do nada. É o culminar de anos de permissividade, de desresponsabilização parental, de uma sociedade que tem medo de dizer "não" às crianças. E as escolas têm sido o palco privilegiado onde este drama se desenrola diariamente, num crescendo que já ninguém consegue controlar.
Basta falar com qualquer professor para perceber a dimensão do problema. As salas de aula tornaram-se campos de batalha onde impera o desrespeito, a agressividade, a total ausência de regras. Os alunos gritam, insultam, ameaçam. E os pais? Muitos deles surgem na escola não para corrigir os filhos, mas para os defender, para culpar os professores, para exigir que se baixe a fasquia.
Nos últimos três anos, mais de 2800 pais pediram ajuda porque estavam a ser agredidos pelos próprios filhos. São quase três casos por dia. Mas quantos mais existirão no silêncio das casas, escondidos pela vergonha ou pela ilusão de que "é só uma fase"?
A verdade é que criámos um sistema perverso. Nas últimas décadas, passámos de uma educação demasiado rígida para uma ausência total de autoridade. Os castigos foram banidos, os limites desapareceram, e qualquer tentativa de impor disciplina é vista como uma violação dos direitos da criança. O resultado está à vista: miúdos que crescem a pensar que tudo lhes é permitido, que não há consequências para os seus atos, que o mundo lhes deve tudo.
Nas escolas, o problema agravou-se com políticas bem-intencionadas, mas desastrosas. A inclusão foi implementada sem meios, sem pessoal especializado, criando situações insustentáveis para alunos, professores e funcionários. A narrativa da "escola a tempo inteiro" transformou as instituições em depósitos onde o importante é manter os miúdos dentro, custe o que custar, para baixar as estatísticas de abandono escolar. E quando há problemas graves de comportamento, a resposta é sempre a mesma: mais psicólogos, mais compreensão, mais desculpas.
Entretanto, os professores estão exaustos, desprotegidos, desvalorizados. Qualquer tentativa de disciplinar um aluno pode resultar numa queixa dos pais ou numa investigação. A autoridade docente foi completamente destruída, e com ela a possibilidade de ensinar. Porque não se ensina nada numa sala onde reina o caos.
O caso de Vagos mostra-nos para onde este caminho nos leva. Um adolescente de 14 anos, que por lei não pode ser responsabilizado criminalmente, matou a própria mãe. Terá no máximo três anos de internamento num centro educativo. E depois? Volta para a sociedade, aos 17 anos, provavelmente sem ter mudado nada.
É preciso coragem para reconhecer que este modelo falhou. Falhou porque esquecemos que educar também é frustrar, é dizer não, é ensinar que há consequências. Falhou porque pusemos os direitos das crianças acima de tudo, esquecendo que elas também têm deveres. Falhou porque tivemos medo de ser autoritários e acabámos por ser permissivos.
Não se trata de voltar aos castigos corporais ou à educação repressiva. Trata-se de recuperar o bom senso. Trata-se de responsabilizar os pais pelo comportamento dos filhos, de dar aos professores os meios e a autoridade para manter a disciplina, de perceber que há alunos que não podem estar numa sala de aula normal sem destruir o ambiente de aprendizagem de todos os outros.
Enquanto continuarmos a proteger os miúdos das consequências dos seus atos, enquanto tratarmos cada birra como um problema psicológico profundo, enquanto tivermos medo de ser firmes, vamos continuar a criar pequenos tiranos. E alguns deles, como vimos esta semana, são capazes de matar.
A pergunta que fica é simples: quantos avisos mais precisamos?

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