Vencimentos: estudar deixou de compensar
Em alguns casos é cada vez menos compensatório. Vou explicar o meu raciocínio que corrobora a afirmação anterior. Vamos aos números, que não mentem. Em 2015, o salário mínimo em Portugal era 55% do salário médio. Em 2024, já representava 68%. Subiu 13 pontos percentuais em menos de uma década. Portugal tornou-se o país da Zona Euro onde o salário mínimo está mais perto do salário mediano.
À primeira vista, parece positivo. Afinal, estamos a subir o salário mais baixo, certo? O problema é que estamos a fazê-lo sozinhos. O salário médio não acompanhou. E isto não é um pormenor técnico – é um problema gravíssimo que está a destruir a classe média portuguesa.
O Governo já anunciou: salário mínimo vai para 920 euros em 2026 e 1.100 euros em 2029. Ótimo. Ninguém discute isso. Mas pergunto: e depois? E os que ganham 1.200? E os que ganham 1.500? E os que estudaram, se qualificaram, têm anos de experiência? Vão ficar a ver navios enquanto o mínimo lhes come terreno mês após mês?
Desde 2015, o salário mínimo subiu 315 euros – um crescimento de 62%. O salário médio? Subiu apenas 298 euros, de 916 para 1.214 euros. Taxa de crescimento: 33%. Metade. E se tirarmos a inflação do meio, a coisa fica pior: o salário médio real cresceu uns míseros 9%, enquanto o mínimo cresceu 34%.
Isto não é apenas injusto. É um absurdo do ponto de vista económico. Thomas Piketty, um economista francês, disse que a desigualdade não é só uma questão de justiça social, é também de eficiência económica. Se eliminarmos os incentivos para as pessoas se qualificarem, para progredirem na carreira, estamos a matar a produtividade.
Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, diz algo parecido: uma economia funciona melhor quando os trabalhadores são bem pagos pelo que fazem. Não se trata de dar o mínimo ao máximo de gente possível. Trata-se de criar uma estrutura onde quem trabalha mais, quem se qualifica mais, quem tem mais experiência, ganha mais. Parece óbvio, mas aparentemente não é.
Peguemos nos professores. A profissão que exerço. Um professor no início de carreira ganha 1.714 euros brutos em 2025. Depois de descontar IRS, CGA e ADSE, se for solteiro e sem filhos, leva 1.360 euros líquidos para casa. O salário mínimo em 2026 vai ser 920 euros. Diferença? 440 euros.
Isto para alguém que tem uma licenciatura de cinco anos, que forma as próximas gerações, que tem uma responsabilidade enorme. Quatrocentos e tal euros a mais que o mínimo. É ridículo.
Mas fica melhor. O INE diz que o salário médio de quem tem licenciatura em Portugal é 2.414 euros brutos. Sabem quando é que um professor chega a esse valor? No 6.º ou 7.º escalão da carreira. Ou seja, depois de 18 a 22 anos a dar aulas. Duas décadas. E isto assumindo que não há congelamentos nem atrasos, o que seria uma piada se não fosse trágico, porque nos últimos anos houve e muitos.
Vinte anos para chegar ao salário médio da tua categoria de formação. Vinte anos. Isto é aceitável? Claro que não.
E ainda por cima, quando tentas ganhar mais, o Estado espreme-te. Portugal é o segundo país da Europa – entre os que têm salários médios abaixo de 25 mil euros anuais – que mais castiga fiscalmente quem passa do salário médio para o dobro. Os dados da OCDE são claros: a carga fiscal aumenta 7,4 pontos percentuais. Só a Grécia é pior.
Se ganhas 1.572 euros (o salário médio), pagas 39,4% em impostos e contribuições. Se ganhas o dobro, pagas 46,8%. Quase metade do teu salário. Num país onde já ganhas pouco, és castigado por ganhares mais. Faz sentido? Não faz sentido nenhum.
Portugal tem os salários líquidos mais baixos da Europa Ocidental. Em média, um trabalhador leva 16 mil euros por ano para casa. Mas o empregador paga 27 mil, porque 42% vai direto para o Estado. É a oitava carga fiscal mais alta da Europa Ocidental.
Olhando para a Suíça, onde os trabalhadores levam 41 mil euros líquidos por ano (ajustado ao custo de vida português) e a carga fiscal é de 23%. Não é magia. É um país que decidiu que criar valor e pagar bem às pessoas era prioridade.
Paul Krugman, outro economista com Nobel, diz uma coisa com que concordo completamente: salários mais altos não são um problema para o crescimento económico, são uma condição. Esta ideia de que pagar bem às pessoas prejudica a economia é uma treta. Países prósperos pagam bem. Países pobres pagam mal. É assim tão simples.
A solução não é parar de subir o salário mínimo. A solução é subir tudo. Toda a estrutura salarial tem de mexer. Sim, baixar impostos ajuda. Menos IRS para a classe média, menos contribuições para as empresas, simplificar o sistema fiscal – tudo isso é importante. Mas não chega.
Todos sabemos que não se consegue criar prosperidade só com truques fiscais. É preciso investimento a sério nas pessoas e pagar-lhes bem pelo que fazem.
Portugal perde milhares de jovens qualificados todos os anos. Engenheiros, médicos, enfermeiros, professores, informáticos – vão embora. Porquê? Porque lá fora pagam o triplo, às vezes mais. Um engenheiro em Portugal ganha uma fração do que ganha na Alemanha. Um professor ganha menos de metade do que ganha noutros países da Europa Ocidental.
E depois queixamo-nos que faltam professores, que faltam médicos, que faltam trabalhadores qualificados. Claro que faltam. Ninguém quer trabalhar por estes salários quando pode ganhar muito mais noutro lado.
Queremos trabalhadores portugueses? Então paguem-lhes. Paguem-lhes convenientemente. Paguem-lhes de forma que compense ficarem cá. Paguem-lhes de forma que um gaiato que acaba o curso não olhe para o salário de entrada e pense “espera, vou passar 5 anos na universidade para ganhar isto?”
Uma sociedade que não valoriza o conhecimento e a competência acaba por perder ambos. É isto que está a acontecer em Portugal. Estamos a perder os melhores porque não os pagamos como deve ser.
O salário mínimo de 1.100 euros em 2029 é justo e necessário. Mas se chegar lá e o salário médio continuar onde está, vamos ter um problema gigante. Vamos dizer aos miúdos que não vale a pena estudar. Vamos dizer aos profissionais que não vale a pena progredir. Vamos dizer aos qualificados para irem para outro país.
Portugal precisa de uma política salarial a sério. Uma que suba o mínimo, mas que também valorize quem está no meio e no topo. Uma que baixe impostos sobre o trabalho. Uma que incentive as empresas a pagar melhor. Uma que reconheça que salários dignos não são um luxo – são um investimento.
A questão é simples e já a disse: queremos trabalhadores portugueses qualificados? Então está na hora de os pagarmos como eles merecem. Porque, e a economia ensina-nos isto, países que não pagam bem às suas pessoas acabam por as perder. E quando isso acontece, não há governo nem política que recupere décadas de talento que foi embora. O exemplo dos professores é paradigmático.
Portugal está num momento de escolha. Ou continuamos neste caminho de salários medíocres para todos, ou mudamos de rumo e construímos um país onde trabalhar, estudar e qualificar-se compensa de verdade. Os números estão aqui. Os problemas são óbvios. Falta é coragem política para fazer o que tem de ser feito?
E para quem governa: aumentar o mínimo é fácil e popular. Aumentar os salários todos é difícil e impopular junto de quem só quer mão de obra barata. Mas é o que tem de ser feito. Caso contrário, daqui a 10 anos continuamos a perguntar-nos porque é que os nossos filhos estão todos lá fora.
Fontes:
Instituto +Liberdade – https://maisliberdade.pt;
OCDE – https://www.oecd.org;
Instituto Nacional de Estatística – https://www.ine.pt
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