Dia 8 de Fevereiro: proteger a democracia ou salvar o status quo?

 


A aproximação ao dia 8 de fevereiro coloca-nos perante um cenário que exige muito mais do que a habitual espuma dos dias ou a repetição acrítica de slogans a que nos habituaram.

O que está verdadeiramente em causa nesta eleição disputada num clima de alta tensão entre André Ventura e António José Seguro transcende as próprias figuras e é um teste à maturidade do nosso sistema democrático e à capacidade do eleitorado de separar o trigo do joio no meio de um ruído ensurdecedor.

Nas últimas semanas assistimos a um debate público sequestrado por uma chuva de adjetivos onde de um lado temos a colagem de epítetos como fascista ou xenófobo e do outro a retórica antissistema.

Mas objetivamente o que é que esta guerra de rótulos produziu?

As sondagens e a perceção pública indicam que a estratégia de diabolização usada até à exaustão pode ter esgotado o seu prazo de validade.

Ao invés de afastar o eleitorado parece ter cristalizado posições e tornado a disputa muito mais renhida do que as previsões iniciais de uma vitória estrondosa do bloco central ou da esquerda faziam crer.

É aqui que reside o ponto fulcral para uma reflexão séria despida de paixões partidárias e creio que urge questionar se a estratégia de ataque pessoal estará a falhar redondamente.

Mais inquietante ainda é tentar perceber se certos setores da direita ao juntarem-se ao coro de críticas a Ventura e ao declararem apoio a Seguro estarão a interpretar corretamente o sentimento de quem vota ou apenas a reagir por instinto de autopreservação perante a ameaça ao status quo.

O fenómeno não é exclusivo de Portugal e merece ser analisado à luz da realidade internacional recente sem preconceitos e sem as habituais palas ideológicas.

Se não vejamos.

Olhemos para os casos de Giorgia Meloni em Itália ou Javier Milei na Argentina onde, em ambos, os cenários a campanha foi dominada pelo medo do fim da democracia.

Contudo a realidade encarregou-se de desmentir a narrativa catastrófica e pós-eleição o mundo não acabou.

Em Itália assistiu-se a uma estabilização política e a uma gestão que muitos analistas surpreendidos classificam de pragmática enquanto na Argentina indicadores económicos como o controlo da inflação e o superavit orçamental desafiam as teorias catastróficas prévias.

A questão que deixo e que considero vital para o debate nacional não é uma defesa de Ventura nem um ataque a Seguro, mas sim uma interrogação sobre a honestidade intelectual da nossa campanha eleitoral.

Estaremos nós a assistir a um combate de ideias e projetos para o país ou apenas a uma tentativa desesperada de evitar o confronto com a prova dos nove?

Será possível que o receio latente em muitos corredores políticos não seja o da incompetência de um eventual novo protagonista, mas paradoxalmente o medo de que a alternância possa trazer resultados diferentes dos habituais?

Se a ameaça se revelar na prática uma gestão funcional como aconteceu com Meloni o que dirá isso sobre décadas de governação anterior?

Por outro lado, não estarão os defensores de Seguro a apostar tudo na manutenção de uma estabilidade conhecida temendo legitimamente os riscos de uma rutura abrupta?

Ambas as posições são válidas num debate democrático desde que discutidas com argumentos e não com insultos.

O eleitor cansado de ser tratado com paternalismo merece mais do que o medo como argumento eleitoral.

Não se iludam.

O eleitor merece saber se o cordão sanitário é uma proteção da democracia ou uma proteção do status quo e dos interesses instalados.

No dia 8 de fevereiro independentemente de quem vença a lição já está dada pois insultar não convence e rotular não esclarece.

O país precisa de decidir se vota pelo que teme perder ou pelo que ousa experimentar e essa escolha para ser livre tem de ser feita com base na análise fria da competência e das propostas e não no calor da adjetivação.

Que ganhe o debate para

 que não percamos todos.


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