O Estado como coutada: a corrupção do espírito e do mérito
Diz-se que a fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia. No Portugal de 2026, a "comedoria" parece ter-se transformado no prato principal de uma classe política que, independentemente da cor da gravata, insiste em confundir o Orçamento do Estado com uma herança de família. Os números da Transparência Internacional são apenas o termómetro de uma doença que já todos conhecemos. A queda para a 46.ª posição no Índice de Perceção da Corrupção não é um acidente de percurso, é o resultado de uma cultura de favores que se instalou nas fundações das nossas instituições. Assistimos, quase impávidos, a um desmantelamento da ética por parte daqueles que mais apregoam a defesa do interesse público. O caso da nomeação de Frederico Perestrelo Pinto para o Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado é de um simbolismo atroz. Não discuto as notas académicas de 17 valores ou o mestrado na Bocconi. O que me causa agrura é a cegueira ética de quem acha normal que o irmão do chefe de gabine...