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Perder a aura

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  Confesso que quando ouvi as declarações do Ministro da Educação sobre os professores perderem a "aura" ao manifestarem-se, também me sobressaltei. A primeira reação foi a mesma de muita gente: "mas que disparate é este?". Mas depois de ler, reler e pensar melhor no assunto, acho que vale a pena olhar para isto de outra maneira. Vamos lá ver. O que é que Fernando Alexandre quererá ter dito, realmente? Reconheceu que os professores são respeitados, que têm autoridade, que sabem. E depois acrescentou aquela frase infeliz sobre perder a aura nas manifestações. Ora, eu pergunto. Não estará ele simplesmente a constatar o óbvio? Que há uma parte da sociedade portuguesa que, infelizmente, olha de lado para quem se manifesta? Que há gente que acha que protestar é coisa de mal-agradecidos ou preguiçosos? O problema não é o que o ministro disse. O problema é que ele tem razão quanto ao facto de haver essa perceção. Só que quem está errado não são os professores, é a sociedad...

Quando a ausência de limites se torna fatal

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Na tarde de terça-feira, em Vagos, um rapaz de 14 anos disparou sobre a mãe, Susana Gravato, vereadora da Câmara Municipal. A notícia chocou o país, não apenas pela brutalidade do ato, mas porque nos obriga a olhar para algo que teimamos em ignorar: estamos a criar uma geração sem limites, sem consequências, sem noção do que é inaceitável. Este caso extremo não surgiu do nada. É o culminar de anos de permissividade, de desresponsabilização parental, de uma sociedade que tem medo de dizer "não" às crianças. E as escolas têm sido o palco privilegiado onde este drama se desenrola diariamente, num crescendo que já ninguém consegue controlar. Basta falar com qualquer professor para perceber a dimensão do problema. As salas de aula tornaram-se campos de batalha onde impera o desrespeito, a agressividade, a total ausência de regras. Os alunos gritam, insultam, ameaçam. E os pais? Muitos deles surgem na escola não para corrigir os filhos, mas para os defender, para culpar os professo...

Domingo à noite, o mapa mudou

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  Há noites eleitorais que são apenas mais uma volta ao ciclo. Ganham uns, perdem outros, daqui a quatro anos logo se vê. Esta não foi uma dessas noites. O que aconteceu domingo mudou o mapa do poder local de forma que vai deixar marca nos próximos anos. O PSD ganhou. Não ganhou “bem”, ganhou mesmo. Lisboa, Porto, Gaia, Sintra – são cidades que não se conquistam por acaso. E quando se junta a isto Guimarães, Beja, Nazaré, percebe-se que não estamos a falar de um bom resultado, estamos a falar de uma reconfiguração. Carlos Moedas fez história em Lisboa. Duas vitórias seguidas para o PSD na capital é coisa que não se via há cinquenta anos. Ganhou bem, aumentou votos, elegeu mais um vereador. Acabou com quinze anos de domínio socialista. É preciso ser-se muito teimoso para não chamar a isto uma grande vitória. Mas fico a pensar: e se tivesse ido a todas as freguesias? Mesmo àquelas onde sabia que ia levar uma tareia? A maioria absoluta estava ali, a um ou dois vereadores de distância....

A gestão escolar e os verdadeiros desafios da escola portuguesa

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  O atual modelo de gestão escolar tem estado, novamente, na agenda política, devido à intenção do Governo de criar um estatuto do diretor. Nesse sentido ouve-se e lê-se cada vez mais uma polarização entre os defensores da gestão democrática e os apoiantes da profissionalização das lideranças escolares. Para contribuir para um debate mais informado, onde deixemos de parte as perceções e analisemos seriamente, sustentado em dados, farei uma análise ao estudo abrangente da Fundação Semapa – Pedro Queiroz Pereira, que ouviu mais de 4.000 professores, diretores e coordenadores, e que nos oferece uma perspetiva mais aprofundada sobre esta questão. Os professores, quando questionados sobre a qualidade da gestão das suas escolas, foram perentórios, 94% classificaram-na como positiva ou muito positiva. Este resultado não é marginal nem ambíguo – é esmagador. Apenas 1%, sim leu bem, 1%, considera a gestão muito negativa e 5% avaliam-na como negativa. Ou seja, apenas 6% dos inquiridos dão no...

Experiência Política: Quando o Discurso Esconde a Falta de Ideias

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A candidatura de Luís Marques Mendes (LMM) à Presidência da República tem-se caracterizado por uma narrativa obsessiva e monotemática. Atente-se às últimas declarações de LMM: "Na escolha de um candidato presidencial contam sobretudo três coisas muito simples: experiência, independência e capacidade de fazer consensos", afirma o candidato, acrescentando que "a presidência da República é um cargo político. Não há presidência sem política. Portanto aqui, a experiência conta." A insistência neste argumento revela não só uma visão empobrecida da política, mas, sobretudo, uma ausência preocupante de propostas e ideias concretas para o país. Quando Aristóteles definiu o ser humano como animal político, estava a afirmar algo fundamental que, pelos vistos, LMM parece ter esquecido. Todos somos política. A política não é uma profissão ou um conjunto de cargos acumulados, é a própria condição da existência em comunidade, o exercício da deliberação sobre o bem comu...

O mito da engenharia alemã desfeito pelos números

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  No cenário nacional, onde o salário mediano se arrasta por perto dos 900 euros e um automóvel novo exige um gasto que facilmente excede os 30 mil, a lógica ditaria que a escolha de um carro se pautasse pela fria racionalidade económica. No entanto, não é isso que vemos acontecer, numa breve circulação por estradas portuguesas. A realidade teima em desafiar este pressuposto. Continuamos, muito por culpa dos “especialistas” automóveis, diga-se, com uma devoção quase mística, em perseguir os símbolos germânicos do prestígio — a tríade Audi, BMW e Mercedes-Benz — ignorando olimpicamente os dados objetivos que as afastam do pedestal da sensatez e da racionalidade. Aquele mito de superioridade germânica, tão enraizado no nosso imaginário, todos os anos se desfaz perante os estudos internacionais de fiabilidade.   Por exemplo, as conclusões do prestigiado J.D. Power Vehicle Dependability Study de 2024 são, no mínimo, embaraçosas para os, ainda,   defensores da engenharia al...

A Falsa Promessa Verde

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  Numa época em que questionar a narrativa dominante relativamente à transição energética no setor automóvel tornou-se quase uma heresia, arrisco a escrever este texto em jeito de alerta. Quem faz o alerta não sou eu, mas vários estudos, que tem dificuldades em conseguirem ser notícia nos órgãos de comunicação social mainstream e a maior construtora de automóveis mundial, a Toyota. Assistimos diariamente à pressão mediática e política para a transição energética que se torna difícil alguém atrever-se a analisar de forma idónea os dados científicos ao alcance de uma pequena pesquisa nos motores de busca disponível a qualquer um. Contudo, começam a aparecer estudos, nomeadamente na Alemanha, e declarações do gigante da indústria automóvel que revelam uma realidade bem diferente da que nos é vendida diariamente. Por exemplo, um estudo alemão recente revelou que o Tesla Model 3, que é considerado o símbolo da mobilidade sustentável, pode produzir mais CO2 do que um carro a...