O mito da engenharia alemã desfeito pelos números

 



No cenário nacional, onde o salário mediano se arrasta por perto dos 900 euros e um automóvel novo exige um gasto que facilmente excede os 30 mil, a lógica ditaria que a escolha de um carro se pautasse pela fria racionalidade económica. No entanto, não é isso que vemos acontecer, numa breve circulação por estradas portuguesas. A realidade teima em desafiar este pressuposto. Continuamos, muito por culpa dos “especialistas” automóveis, diga-se, com uma devoção quase mística, em perseguir os símbolos germânicos do prestígio — a tríade Audi, BMW e Mercedes-Benz — ignorando olimpicamente os dados objetivos que as afastam do pedestal da sensatez e da racionalidade.

Aquele mito de superioridade germânica, tão enraizado no nosso imaginário, todos os anos se desfaz perante os estudos internacionais de fiabilidade.  Por exemplo, as conclusões do prestigiado J.D. Power Vehicle Dependability Study de 2024 são, no mínimo, embaraçosas para os, ainda,  defensores da engenharia alemã.  No caso da BMW, a ambição e o pináculo da maioria do portugueses, segundo os dados estatísticos das pesquisas de automóveis usados em Portugal,  mal se arrasta até ao nono lugar. No caso da Audi, o cenário é ainda pior, pois nos testes dá um mergulho de credibilidade, figurando entre as menos fiáveis, superada apenas por nomes como a Land Rover. Todo este quadro agrava-se de ano para ano, e prova disso é o estudo de 2025, quando a média da indústria de problemas por 100 veículos atingiu o alarmante patamar de 202. Estamos, com dados concretos, a perceber que as máquinas alemãs, outrora sinónimo de perfeição, revelam-se hoje complexas e propensas a avarias de uma onerosidade insustentável.
Poderá dizer: “mas o estudo é dos Estados Unidos, pela Europa é diferente”. Não é! Também é isso que revela o estudo de fiabilidade da 
OCU - Organização de Consumidores e Utilizadores.

Do outro lado da barricada, aparecem os carros Nipónicos, coma Lexus a reinar incontestadamente, liderando os rankings de fiabilidade com apenas 135 problemas por 100 veículos — quase metade da média industrial. Na Europa, a marca japonesa consolidou o seu estatuto de líder, sendo eleita pelos consumidores como a mais fiável pelo segundo ano consecutivo, com uma pontuação recorde de 97%.

Quando vemos, nas revistas portuguesas e nos sites da especialidade automóvel que as marcas premium verdadeiramente fiáveis, como a Lexus e a Infiniti a serem constantemente esquecidas ou relegadas para o o último lugar dos comparativos, devíamos, no mínimo, suspeitar. Pois, segundo a racionalidade deviam ser o topo de gama das nossas aspirações e consequentemente aparecerem como tal na imprensa da especialidade. A Lexus, em particular, oferece um requinte de acabamentos e um nível tecnológico que nada invejam às suas congéneres alemãs, mas com uma fiabilidade que estas, pura e simplesmente, não conseguem igualar. Porque razão isto não é dito?  Os seus modelos híbridos, pioneiros no segmento, combinam eficiência, sofisticação e uma durabilidade à prova de bala.   A Infiniti, embora com 219 problemas por 100 veículos (ainda assim, à frente de muitas alemãs), oferece uma proposta de valor interessante. Contudo, ambas permanecem quase invisíveis nas nossas estradas, vítimas de um complexo coletivo que privilegia, com conivência da imprensa, a insígnia sobre a essência.

A nossa irracionalidade, doutrinada pela imprensa, não se esgota no segmento premium. Estende-se às escolhas mais populares. As propostas francesas — Citroën, Peugeot, Renault — e as italianas, como Fiat e Alfa Romeo, atraem com preços iniciais convidativos, mas desmascaram-se como verdadeiras armadilhas financeiras a médio prazo. A Alfa Romeo, por exemplo, é uma presença assídua nos piores lugares dos estudos europeus de fiabilidade, ainda assim continua a vencer comparativos. Será o Design?

Em contrapartida, as marcas coreanas — Hyundai e Kia — exibem uma evolução notável em qualidade e fiabilidade, amparada por garantias extensas que são um selo de confiança.  As japonesas Toyota e Honda mantêm-se como o farol da durabilidade, com custos de manutenção previsíveis e uma desvalorização que lhes garante um valor residual superior.

A nossa persistência na escolha das marcas alemãs, contra toda a evidência, é reveladora da nossa psicologia coletiva. O automóvel há muito que deixou de ser um mero meio de transporte para se converter num símbolo de estatuto social. Conduzir um BMW, um Audi ou um Mercedes não é uma questão de mobilidade; é uma declaração pública de sucesso, mesmo que esse sucesso seja financeiramente insustentável e muitas vezes ilusório.

Esta obsessão pelo prestígio é particularmente nefasta num país de rendimentos modestos. Muitos endividam-se de forma excessiva ou adquirem viaturas em fim de vida útil destas marcas, unicamente para ostentar o símbolo. O resultado são carros com custos de manutenção exorbitantes, peças caríssimas e uma depreciação brutal.

No contexto económico português, o verdadeiro luxo deveria ser a tranquilidade que advém de escolhas ponderadas.  A racionalidade sugere que, face aos nossos salários, deveríamos privilegiar marcas com historial comprovado de fiabilidade, custos de manutenção previsíveis e boa retenção de valor. As marcas japonesas e coreanas, neste campo, destacam-se como a proposta de valor mais sensata.

É tempo de questionar as nossas motivações. Procuramos um bom automóvel que nos sirva lealmente durante anos, ou apenas um símbolo para impressionar o vizinho? A resposta deveria ser óbvia, mas o cenário das nossas estradas sugere o contrário. Numa era de crescente consciência ambiental, manter um automóvel fiável por mais tempo é mais responsável do que entrar no ciclo vicioso de comprar, reparar e substituir prematuramente veículos de marcas supostamente prestigiosas.

O verdadeiro requinte reside na capacidade de tomar decisões informadas e racionais, libertas das pressões sociais. Talvez seja altura de redefinirmos o que é o verdadeiro prestígio automóvel: não a insígnia na grelha, mas a sabedoria que a antecede.

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