Domingo à noite, o mapa mudou
Há noites eleitorais que são apenas mais uma volta ao ciclo. Ganham uns, perdem outros, daqui a quatro anos logo se vê. Esta não foi uma dessas noites. O que aconteceu domingo mudou o mapa do poder local de forma que vai deixar marca nos próximos anos.
O PSD ganhou. Não ganhou “bem”, ganhou mesmo. Lisboa, Porto, Gaia, Sintra – são cidades que não se conquistam por acaso. E quando se junta a isto Guimarães, Beja, Nazaré, percebe-se que não estamos a falar de um bom resultado, estamos a falar de uma reconfiguração.
Carlos Moedas fez história em Lisboa. Duas vitórias seguidas para o PSD na capital é coisa que não se via há cinquenta anos. Ganhou bem, aumentou votos, elegeu mais um vereador. Acabou com quinze anos de domínio socialista. É preciso ser-se muito teimoso para não chamar a isto uma grande vitória.
Mas fico a pensar: e se tivesse ido a todas as freguesias? Mesmo àquelas onde sabia que ia levar uma tareia? A maioria absoluta estava ali, a um ou dois vereadores de distância. Bastava calçar umas sapatilhas e ir bater à porta, ouvir queixas, mostrar a cara. O poder local ainda se ganha assim, na rua, freguesia a freguesia. Faltou ali um bocadinho mais de suor e a história podia ter sido outra.
Mesmo assim, nada disto tira mérito ao que se conseguiu. Moedas provou que se pode governar Lisboa sem ser do PS. E provou duas vezes seguidas.
Alexandra Leitão perdeu votos em Lisboa. Numa cidade que cresce, com mais gente a votar, perder votos é obra. E não foi por pouco: foram mais de dez mil votos que se evaporaram em relação ao que os partidos da coligação tinham há quatro anos.
O problema começa logo ali: a candidata nunca colou. A campanha foi um filme mudo. E juntar-se ao Bloco e ao Livre foi como pendurar um cartaz a avisar o eleitorado moderado para ficar em casa ou votar noutro lado.
Os lisboetas querem que lhes resolvam problemas: casas caras, trânsito infernal, ruas sujas, sensação de que está tudo um bocado ao deus-dará. Não querem teses sobre modelos de cidade. Querem alguém que ponha mãos à obra.
A diferença entre Loures e Lisboa conta-se em quilómetros, mas parece ser de continentes diferentes. Ricardo Leão ganhou em Loures com maioria absoluta. Aumentou a votação brutalmente, ganhou dois vereadores, deixou a concorrência a comer pó.
E isto depois de ter sido praticamente excomungado dentro do próprio partido. Até o António Costa, lá de Bruxelas, achou por bem meter-se e assinar cartas contra ele. Resultado: os eleitores mandaram uma mensagem clara. Não querem socialistas de salão, querem socialistas que percebam os problemas reais das pessoas.
Ricardo Leão percebeu que há gente farta. Farta de ver regras que não se cumprem, farta de achar que há quem se aproveite do sistema, farta de sentir que ninguém tem coragem de dizer as coisas como elas são. E em vez de fugir do tema, foi de frente.
É este o socialismo que funciona. O que está na rua, que ouve as pessoas, que não tem medo de chatear os coleguinhas do partido. Se o PS não aprender com Loures, vai continuar a perder as cidades que interessam.
O Chega ganhou três câmaras. Prometeu dezenas, ficou-se por três. Mas convém não esquecer: este partido tem seis anos. Começar a ter autarcas eleitos, vereadores em executivos, presença no terreno – isto não se faz de um dia para o outro.
As autárquicas não são legislativas. Não chega pôr a cara do Ventura nos cartazes e esperar que chova. É preciso ter gente credível, que conheça os problemas locais, que saiba falar com as pessoas. O Chega está a aprender isto. Devagar, mas está.
Agora vem o teste a sério: governar. Em Lisboa, no Porto, em Gaia, vão ter de decidir se querem ser construtivos ou destrutivos. Se querem ajudar a resolver problemas ou apenas marcar posição ideológica. Os eleitores estarão atentos.
José Luís Carneiro parecia aliviado na noite de domingo. Aliviado porque não foi pior. Mas é isto que o PS quer ser? Um partido aliviado por não ter levado uma coça maior?
Perderam vinte e duas câmaras. Perderam as cinco maiores cidades do país. Estão cada vez mais concentrados no interior, em zonas mais envelhecidas, mais pobres, menos dinâmicas. As cidades que crescem, que têm gente jovem, que têm futuro – essas estão a escapar-lhes das mãos.
Têm de escolher. Ou ouvem Ricardo Leão ou continuam a ouvir Alexandra Leitão. Ou vão ao encontro das preocupações reais das famílias ou ficam na bolha dos que acham que tudo o que foge do guião é populismo.
Porque uma coisa ficou clara: a classe média urbana já não se revê no PS que existe hoje. E sem classe média urbana, não há futuro.
Houve mais coisas a acontecer para além dos partidos do costume. Movimentos de cidadãos, independentes, gente que se juntou porque quis mudar a sua terra. E alguns ganharam.
Isto faz bem à democracia. Obriga os partidos a espevitarem-se, a não darem os votos como garantidos, a perceberem que têm de merecer a confiança das pessoas eleição após eleição.
Estas eleições mostraram que os portugueses não são burros. Votam em quem trabalha, em quem está na rua, em quem resolve. As cores dos partidos importam cada vez menos, os nomes e o trabalho feito importam cada vez mais.
O PSD leu bem o momento. O PS, em demasiados sítios, não leu. O Chega está a crescer, nem que seja devagar. E a política local provou, mais uma vez, que é o sítio onde ainda se pode fazer a diferença.
Os que ganharam que não adormeçam. Os que perderam que percebam porquê. Porque daqui a quatro anos, os eleitores voltam a ter a palavra. E vão usá-la.
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