A escola pública não precisa de pena. Precisa de respeito.

 


O problema da educação pública portuguesa não é falta de diagnóstico. É falta de vontade de tratar a doença pelo nome.

Há um elefante em cada sala de aula portuguesa. Chama-se indisciplina crónica, chama-se desvalorização sistemática do professor, chama-se burocracia sufocante. E nós, coletivamente, continuamos a desviar o olhar.

Os dados da OCDE não mentem. Portugal está acima da média europeia no tempo de aula perdido por comportamentos perturbadores. Um em cada três professores refere ser afetado regularmente. Ao mesmo tempo, cerca de 79% dos docentes identificam o excesso de carga administrativa como obstáculo real ao seu trabalho. Não são números abstratos, são horas roubadas ao ensino, sono roubado a quem ensina, vocação progressivamente esgotada pelo atrito institucional.

E no entanto, persistimos num ciclo estranho. O país declara amar a escola pública e vai deixando erodir, mês após mês, as condições que a fazem funcionar.

"Autoridade pedagógica não é autoritarismo. É o reconhecimento legítimo de quem sabe, de quem se forma, de quem cuida."

A desvalorização do professor não é apenas salarial, embora também o seja. É simbólica, quotidiana e devastadora. A figura do docente deixou de ser a do especialista respeitado na comunidade e passou a ser alguém cuja autoridade pode ser questionada por qualquer um. Por pais, por alunos, por narrativas que o tratam como suspeito em vez de parceiro. Os chamados "microtribunais" — onde a ação pedagógica é julgada sem contexto, nas redes sociais ou nos gabinetes, têm um efeito que os alunos sentem antes dos professores. E o que sentem não os ajuda a crescer.

A isto acrescentamos o boato como instrumento político. Nos últimos meses circularam, com intenção mais ou menos declarada, rumores sobre o fim da carreira especial docente, sobre o colapso dos concursos nacionais, sobre um horário semanal de 45 horas sem compensação. Foram desmentidos. Mas importa perceber porque proliferaram. Quando as instituições falham na comunicação, quando as negociações são opacas, o boato preenche o vazio. Isso não o torna verdadeiro. Torna-o, porém, politicamente útil para quem vive da polarização e profundamente prejudicial para quem precisa de energia para exigir o que realmente falta.

Porque o que falta é real e documentável. Um Estatuto do Aluno que proteja efetivamente a autoridade pedagógica, tabelas salariais que reflitam a complexidade de uma profissão de grau 3 na Administração Pública, avaliação docente que sirva para melhorar e não para sancionar, currículos repensados com, e não apesar de, quem ensina, desburocratização que devolva aos professores o tempo que deveria ser dos alunos. E, já agora, o reconhecimento pleno dos assistentes operacionais, esses pilares invisíveis sem os quais nenhum edifício escolar funciona.

Houve avanços recentes que seria desonesto ignorar. A recuperação do tempo de serviço congelado foi uma vitória justa. O compromisso de eliminar quotas de acesso a escalões é um sinal positivo. Mas os avanços não podem ser usados para normalizar o que continua errado, e continua muito.

A escola pública não precisa de pena nem de retórica. Precisa de respeito concreto. Pelo trabalho dos seus profissionais, pela dignidade dos seus alunos, pela função insubstituível que cumpre numa democracia. Uma escola enfraquecida não é um problema dos professores. É um problema de todos.

Defendê-la não é nostalgia. É urgência.


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