O TRAUMA COMO FERRAMENTA DE CRESCIMENTO: REPENSAR A EDUCAÇÃO
Começo este artigo com uma pergunta retórica:
Será que queremos eliminar o trauma do crescimento e do desenvolvimento humano?
A origem da palavra “trauma" é a palavra
grega traumatos, que significa
"ferida" ou "lesão". No contexto Etimológico, refere-se a
uma marca, a uma cicatriz que permanece após um impacto considerável. No
contexto educativo, a origem etimológica ganha uma relevância específica ao
observarmos que a sociedade tem tentando por todos os meios eliminar qualquer
tipo de desconforto ou dificuldade no processo de aprendizagem, ignorando que
as “marcas” mais profundas são frequentemente aquelas que acabam por ter um efeito
maior na nossa transformação e crescimento.
Nos últimos anos, sobretudo na última década,
tem-se generalizado a narrativa, bastante, perigosa de que a aprendizagem deve
ser um processo isento de qualquer tipo de pressão, esforço ou, usando o termo
de forma mais ampla, "trauma". Esta visão reducionista ignora uma
verdade fundamental: não existe crescimento sem algum grau de desconforto, não
há desenvolvimento de caráter sem enfrentar adversidades, e não se constrói
resiliência evitando sistematicamente todos os obstáculos.
O que assistimos aos dias de hoje é uma total
inversão dos princípios educativos estudados e investigados ao longo de
décadas. Enquanto anteriormente se valorizava o mérito, o empenho a dedicação,
atualmente nivela-se por baixo em nome de uma pseudo inclusão, mal compreendida
e sobretudo mal-executada. Esta forma de abordar a questão da educação
desvaloriza os alunos que se empenham e acaba por criar uma ilusão pedagógica
para aqueles que são levados a acreditar que o sucesso, na escola como na vida,
é garantido independentemente do seu investimento pessoal.
É aqui que devemos falar do trauma no contexto
educativo, não para nos referirmos às experiências traumáticas no sentido
clínico ou patológico, mas sim referindo-nos aos momentos de tensão criativa,
ao desafio intelectual, de confronto com as próprias limitações que são
essenciais para se ser resiliente e sustentar o crescimento pessoal. É unânime
que é através da superação das dificuldades que se molda o caráter, se
desenvolve a verdadeira autoconfiança e se constrói a resiliência.
Um aluno que
nunca é confrontado com o “trauma” de uma reprovação, quando justamente
aplicada, de um feedback negativo ou de ter de refazer um trabalho, porque o
que fez não cumpre com os requisitos de exigência, está a ser privado, estamos
a privá-lo, de oportunidades cruciais de aprendizagem. A superproteção evita a
experimentação, que embora possa ser desconfortável, é fundamental para o
desenvolvimento integral como pessoa e como futuro profissional.
Costumo dizer que o processo educativo, ou seja,
o processo de ensino-aprendizagem, assenta num triângulo pedagógico, onde
aluno, família e escola se encontram harmoniosamente em sintonia em prol do
próprio processo. Cada um deste vértice tem as suas responsabilidades, que são
específicas e não substituíveis, e é precisamente no reconhecimento e aceitação
dessas responsabilidades que reside a possibilidade de crescimento. Quando
algum destes vértices se comporta fora das expectativas, isto é, remove a pressão
e a exigência que lhe compete exercer, todo o sistema se desestabiliza.
Todos os vértices, mas, sobretudo, o aluno deve
aprender que o esforço e a dedicação que investir está diretamente relacionado
com o sucesso que possa ter. Esse empenho é o pré-requisito para o sucesso.
Por outro lado, os pais devem, também,
compreender que a proteção excessiva dos filhos de qualquer dificuldade, que
estes enfrentarem, é, na verdade, prejudica-los a longo prazo.
Do lado da escola, deve haver um compromisso
institucional em manter os padrões de exigência elevados, não por crueldade,
mas por responsabilidade para com a sociedade e para com o futuro dos seus
alunos.
Engana-se quem julga que a resiliência é uma
característica inata. Na verdade, é uma competência que se adquire e desenvolve
através da experiência vivida. Cada obstáculo superado, cada dificuldade
enfrentada, cada "trauma" educativo, que seja bem gerido, contribui
para a construção de uma personalidade mais forte e uma flexibilidade mental
capacitada para os desafios da fase seguinte.
Quando, ainda que com intenções benevolentes,
privamos os jovens da possibilidade de experimentar, de vivenciar determinadas
experiências formativas, estamos a criar uma geração, mesmo que mais bem
formada academicamente, menos preparada para enfrentar as adversidades da vida
adulta. Estamos a construir uma falsa confiança baseada em sucesso artificial
em vez de deixar que esta seja autoconstruída através das conquistas reais.
No fundo é um paradoxo, cruel, que atinge a atual
abordagem educativa. Ao tentarmos proteger os alunos de qualquer desconforto
com o qual se confronte, estamos, na verdade, a torná-los mais frágeis e
vulneráveis. Um jovem que nuca experimentou na primeira pessoa o “trauma” de
ter que trabalhar arduamente para conseguir atingir algum objetivo, de
enfrentar uma dificuldade real ou de lidar com um insucesso, académico,
amoroso, relacional, encontrar-se-á completamente desarmado quando em vida
adulta se confrontar com desafios que não só os desconhece como não desenvolveu
ferramentas para o ultrapassar.
A verdadeira função educativa não deve evitar
todas as dificuldades aos alunos, mas sim proporcionar-lhes cenários
desafiantes o suficiente para que eles possam desenvolver ferramentas para os
superarem. É necessário ensinar que o desconforto não é permanente, mas que o
crescimento que ele provoca sim.
É urgente que todos os vértices do triângulo
pedagógico entendam que o verdadeiro sentido da educação é a formação integral
da pessoa e isso implica, necessariamente, aceitar que no caminho as feridas e
as marcas provocadas pelo trauma são essenciais para o crescimento e a formação
do caráter.
Não julgue o leitor que estou aqui a defender
práticas pedagógicas abusivas ou a promover um ambiente educativo hostil. Estou
apenas a reconhecer, e a pedir que reconheçam, que para educar é preciso ter
coragem. Coragem para exigir, coragem para reprovar quando necessário, coragem
para dizer "não" quando é preciso, e coragem para permitir que os
jovens enfrentem as suas dificuldades e cresçam através delas.
Só retomando este caminho é que nos podemos
comprometer com a formação de cidadãos resilientes, responsáveis e,
verdadeiramente, preparados para contribuir positivamente para a sociedade.
Só assim honraremos o verdadeiro significado
etimológico do trauma: não como uma ferida que debilita, mas como uma marca que
fortalece o desenvolvimento e transforma e molda o caráter.
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