Calendário Escolar: Quando a Escola se Torna Prisão
Não podia deixar de voltar ao assunto. O Ministério de educação, o ano passado, aprovou um calendário escolar, nomeadamente para os alunos mais novos, que é desaprovado por todos aqueles que na escola trabalham. Até 2027 teremos um calendário escolar que mantém os alunos do 1.º ciclo na escola até ao final de junho, perpetuando uma política educativa que contraria todas as evidências científicas e pedagógicas disponíveis. Esta insistência num modelo comprovadamente prejudicial revela não apenas uma desconexão total com a realidade das crianças e professores, mas também a instrumentalização da escola para fins que nada têm a ver com educação. É, na realidade, assumir que o estado social faliu e que a escola faz, desde do tempo da pandemia esse papel.
No
entanto, os testemunhos relativamente a este calendário, apesar de unânimes e
devastadores, são ignorados por quem decide. Os pais, não digo muitas das
associações de pais cujo interesse é manter os alunos na escola a todo o custo,
como é o caso da CONFAP, relatam filhos em estado de exaustão extrema já em
maio, os professores descrevem as últimas semanas como "penosas", e os
diretores escolares admitem que não existe qualquer benefício pedagógico neste
prolongamento forçado. Quando uma criança de 2.º ano, que ao longo do ano adora
ir para a escola, já manifesta cansaço e "conta os dias" para o fim
das aulas, algo está profundamente errado com o sistema.
Quando
há pais que optam por não levar os filhos à escola nos últimos dias por
considerarem que esse desgaste coloca em causa “a saúde mental" da
criança, deveria ser um sinal de alarme para qualquer responsável político com
um mínimo de sensibilidade.
Mas,
infelizmente, a resposta do Ministério tem sido sempre a de manter o mesmo
modelo, ignorando completamente o sofrimento evidente de milhares de crianças.
Um modelo que foi introduzido na altura da pandemia, devido à “recuperação das
aprendizagens” e que foi ficando sem que ninguém se preocupe verdadeiramente
com a situação.
Só
quem “pisa” os corredores das escolas do ensino pré-escolar e primeiro ciclo é
que está capaz de ver com os próprios olhos a necessidade que os professores
têm de improvisar atividades lúdicas nestas últimas semanas porque reconhecem
que qualquer tentativa de ensino formal se torna contraproducente. Os
professores, em surdina, ajustam as planificações para terminarem os conteúdos
a abordar até ao fim da primeira semana de junho, reconhecendo implicitamente a
inutilidade pedagógica do restante período.
Não
tenho conhecimento de um único estudo que demonstre que este prolongamento
tenha benefícios para os alunos, nem pedagógicos, nem sociais e isso devia ser
o suficiente para decidir em função dos dados existentes. O que encontramos são
evidências que apontam para o sentido oposto. Já em 2019 o relatório “Educativo
at a Glance 2019" da OCDE colocava Portugal entre os países com o
calendário letivo mais longo da Europa, sem relação direta com melhores
resultados académicos. Relembro que nesse ano, e nos anteriores, o ano letivo
para estes ciclos de ensino terminavam uma semana mais cedo.
As
crianças portuguesas, no primeiro ciclo, têm uma diferença de quase dois meses
de aulas, em comparação com a média europeia. Com a agravante de que esta
sobrecarga temporal não só não melhora as aprendizagens como pode
prejudicá-las, criando saturação e aversão ao ambiente escolar.
Em
2017, o Conselho Nacional de Educação era claro no seu estudo "Organização
escolar: o tempo": Era possível ler que "mais tempo escolar não
significa melhor tempo de aprendizagem", ou seja, transformar a escola
numa "sala de aula a tempo inteiro" resulta em "menos bem-estar,
ambientes adversos à missão da escola, mais indisciplina, mais insucesso
escolar". Mas, até hoje, não houve nenhum governo capaz de decidir baseado
nas evidências, preferindo decidir pressionado por uma certa franja ideológica
que acha que a escola é um depósito.
Temos
de ser honestos, sobre o que está realmente em causa. O prolongamento do
calendário escolar mais não é do que assumir a falência do estado social. No
fundo só serve uma sociedade que abdica das suas responsabilidades familiares e
comunitárias, transferindo para a escola funções que nunca lhe deveriam
pertencer.
O
reconhecido psicólogo Eduardo Sá denuncia corajosamente a situação e deixa no
ar algumas questões que nos deviam, pelo menos, inquietar: "Será razoável
que haja crianças que comecem a trabalhar às 08h00 e terminem de trabalhar às
20h00, todos os dias? Será sensato que não ponderemos as consequências deste
novo trabalho infantil?"
A
escola atualmente tornou-se refém de uma função assistencialista que cresce em
proporção inversa do investimento em políticas de apoio às famílias. O mais
fácil seria manter as crianças na escola até ao final de junho, mas o melhor
seria criar, juntamente com o poder local, nomeadamente Juntas de Freguesia e
Câmaras Municipais, respostas socias adequadas que permitam aos pais conciliar
a vida profissional e familiar sem sacrificar uns e outros. Os pais no medo de
perderem o emprego e os filhos o seu bem-estar.
Não
me parece difícil perceber que a solução não deve passar por manter as crianças
presas na escola durante mais tempos, mas sim criar estruturas sociais que
respeitem as necessidades de desenvolvimento das crianças. O poder local
poderia facilmente organizar programas de atividades lúdico-pedagógicas que ocupem
as crianças de forma construtiva após o fim do ano letivo formal, proporcionem
experiências enriquecedoras fora do ambiente escolar tradicional, incluam
atividades ao ar livre, desporto, artes e outras expressões criativas, permitam
às crianças socializar de forma mais livre e natural, respeitem os seus ritmos
biológicos e necessidades de descanso.
Estas
atividades seriam uma boa forma de acrescentar valor ao desenvolvimento
integral dos alunos e uma excelente alternativa ao atual modelo de “ocupação
escolar”, proporcionando experiências verdadeiramente formativas em vez de as
manter “artificialmente” a aprender em salas de aulas onde a aprendizagem
efetiva tem dificuldade em entrar.
Há
que ter coragem! É tempo de acabar com esta hipocrisia educativa que não só sacrifica
o bem-estar de crianças como também a dos professores sustentada na falácia da
eficiência pedagógica.
Por
ser contra todas as evidências científicas disponíveis, o prolongamento do
calendário escolar para o 1.º ciclo é um absurdo educativo, um atentado à saúde
mental.
Se
queremos realmente melhorar a educação em Portugal, devemos começar por decidir
com base nas evidências e não ceder a pressões sociais. Nesse sentido, comecemos
por respeitar as crianças como seres humanos com necessidades específicas, não
como produtos numa linha de montagem, de uma qualquer fábrica, que devem
permanecer na escola o maior tempo possível independentemente dos custos
pessoais e sociais que uma decisão dessas acarreta.
Urge
olhar para este problema, não apenas para o calendário escolar, mas também para
o próprio papel que a escola começou a ter, a escola depósito, a escola que
substitui o estado social, a escola que guarda as crias dos trabalhadores. As
nossas crianças, os nossos alunos merecem mais e melhor do que este sistema que
os trata como objetos/cobaias de políticas educativas pouco humanizadas e que
se mostram ineficazes.
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