A Hierarquia das Vidas e o Colapso da Razão Ocidental
Nos últimos dias, fomos confrontados com dois casos paradigmáticos da hipocrisia que invadiu o Oriente. Os dois casos - Charlie Kirk, Iryna Zarutska que contrastam com um terceiro de George Floyd - revelam a face mais sombria dessa hipocrisia contemporânea que aniquila o Ocidente.
A forma como estes casos nos são “apresentados”, não se trata apenas de inconsistência política ou de viés mediático. Estamos perante a construção deliberada de uma hierarquia das vidas humanas. Nessa construção, o valor de cada existência é determinado não pela sua humanidade intrínseca, mas pela sua utilidade para uma narrativa ideológica totalitária. Este é o mais grave problema do Ocidente.
George Floyd tornou-se um ícone global. A sua morte, que foi inegavelmente trágica e injustificável, desencadeou protestos em todo o mundo e gerou milhões de dólares em donativos. Além disso, inspirou murais por todo o mundo e forçou uma revisão profunda das estruturas sociais americanas. Floyd, um criminoso, foi elevado a mártir de uma causa que transcendeu a sua própria biografia. Porquê, ninguém se pergunta?
O drama de Floyd contrasta agora com o de Iryna Zarutska. Uma refugiada ucraniana de 23 anos que fugiu da guerra foi encontrar a morte nas mãos de um esquizofrénico com 14 detenções anteriores, mas que devido à sua cor de pele estava em liberdade. O seu assassinato brutal num comboio lotado, filmado por câmaras de segurança, foi silenciado pela comunicação social. Ninguém se pergunta porquê? Foi ignorado pelas autoridades locais durante semanas. Ninguém se pergunta porquê? Quando finalmente emergiu, através das redes sociais, foi, rapidamente, catalogado, pela autarca local, como "mania da supremacia branca". Uma distorção grotesca da realidade que revela como a verdade é sacrificada no altar da narrativa. Se a autarca condenasse o assassinato, o que lhe teria acontecido?
No caso de Charlie Kirk, morto, a sangue frio, por expressar ideias em debates universitários civilizados e pela sua defesa da liberdade de expressão, o que aconteceu? Como era conservador e de direita a sua morte foi celebrada nas redes sociais por aqueles, geralmente de esquerda, que se autoproclamam defensores da tolerância e da diversidade. “Bem-feito”, dizem; morreu porque defendia o livre uso de armas; era fascista, pode morrer que não faz falta. Foram estes e outros comentários que invadiram as redes sociais.
A hipocrisia não reside apenas nesta desigualdade de tratamento mediático ou na disparidade da indignação pública. Reside na inversão sistemática da realidade que caracteriza o pensamento woke. Charlie Kirk, que promovia o diálogo pacífico, era rotulado de "extremista". O seu assassino e os que celebraram a sua morte são apresentados como defensores da democracia.
Zarutska que foi, nitidamente, vítima de violência racial, foi ignorada porque não servia a narrativa. O seu assassino é descrito como vítima do sistema. A sério? E se fosse ao contrário?
Engane-se quem acha que isto é simples duplicidade política, é, isso sim, a manifestação de uma ideologia que rejeita a realidade objetiva em favor de uma construção social arbitrária. Quando as palavras perdem o seu significado, quando usam a palavra "fascista" para descrever quem defende a liberdade de expressão e "democrata" para descrever quem celebra assassinatos políticos, está tudo dito. Estamos perante o colapso da linguagem como instrumento de comunicação racional.
No caso George Floyd, que ninguém nega ter representado uma injustiça real, foi instrumentalizado para criar uma narrativa que tornou impossível o tratamento equitativo de outros casos. A elevação de Floyd a símbolo universal de opressão criou um padrão pelo qual todas as outras mortes passaram a ser medidas. Mas apenas se servirem a agenda ideológica correta, caso contrário caem no esquecimento, não existem ou o vilão é vitima social.
Esta instrumentalização teve, desde então, consequências devastadoras que convém lembrar: as forças de segurança foram perdendo financiamento, vários criminosos foram libertados prematuramente sob o pretexto de "justiça racial" e uma cultura de impunidade foi crescendo o que permitiu que indivíduos como Decarlos Brown, o assassino de Zarutska, permanecessem nas ruas apesar de um historial criminal extenso.
A "tolerância zero", cá como lá, foi abandonada não porque fosse ineficaz, pelo contrário, mas apenas porque era politicamente incorreta. (Veja-se os festejos em Paris aquando a vitória na final da Champions League.)
Todo aquele movimento desencadeado pela morte de Floyd , como o BLM (Black Lives Matter) não foi apenas um apelo à justiça. - Black Lives Matter é em si uma forma de racismo para quem não é black. Será possível que ninguém se questione?
Foi, na verdade, a institucionalização do sentimentalismo como princípio político. Com isso, substituiu-se a análise racional por reações emocionais, a evidência empírica por narrativas construídas e a igualdade perante a lei por uma justiça "reparadora" que estabelece diferentes padrões consoante a identidade das partes envolvidas.
Vamos continuar a aceitar?
Se tudo isto não for suficiente para começarmos a não aceitar este tipo de narrativa, posso informar que essa tirania sentimental é particularmente perniciosa porque se apresenta como sendo virtuosa. Ou seja, quem não alinha quase que se sente mal socialmente, com medo. Porque quem questiona a narrativa é imediatamente catalogado como racista, fascista ou supremacista branco. Encerrando-se assim o debate ainda antes de começar, não através da força bruta mas através da chantagem moral e a aceitação social.
Mas aquilo que me deixa mais “deprimido” é a forma como a Europa se rebaixou perante a narrativa americana dos Democratas, Biden a Kamala, importando acriticamente conflitos raciais que nem sequer são seus, problemas históricos que não partilha e soluções que não precisa. O Parlamento Europeu que recusou um minuto de silêncio por Charlie Kirk é o mesmo que se ajoelha perante cada causa progressista importada de além-Atlântico. Como Trump é frontalmente contra esta narrativa passou, também por isso, a inimigo europeu, precisamente por ser racista, fascista e xenófobo segundo o colapso da linguagem como instrumento de comunicação racional.
Esta submissão intelectual revela a extensão da colonização mental do Ocidente europeu. Países com histórias, culturas e desafios distintos adotaram uma linguagem e uma estrutura conceptual estrangeira, renunciando à sua própria capacidade de análise independente. O resultado é uma Europa que tem cada vez mais dificuldade em reconhecer os seus próprios valores, que já quase não consegue defender os seus próprios cidadãos, e que celebra o silenciamento dos seus próprios “filhos”.
A diferença de tratamento destes três casos é o produto de uma cobardia intelectual sistémica que vai caracterizando as elites ocidentais contemporâneas. Para estes, é mais fácil repetir slogans, seguir a corrente, fingindo que a realidade é aquilo que a narrativa mainstream decreta, do que enfrentar a complexidade e contradições do mundo real, geralmente distante das bolhas onde vivem.
Com esta cobardia, estamos todos a pagar um preço demasiado alto. A erosão da confiança nas instituições, a polarização crescente da sociedade e o abandono dos valores que fizeram da civilização ocidental um farol de liberdade e racionalidade. Quando a polícia já não pode prender criminosos, manter a ordem púbica, por medo de ser acusada de racismo, quando as universidades se tornam ninhos ideológicos que silenciam as vozes dissidentes para proteger "espaços seguros", quando os jornalistas ocultam crimes para preservar narrativas, estamos perante a desintegração do contrato social que sustenta as sociedades livres.
Estes três casos representam uma escolha civilizacional entre a razão e a ideologia, entre a verdade e a narrativa, entre a igualdade humana e a hierarquia identitária.
Uma sociedade que celebra o assassinato de um dos seus pensadores, mesmo pudessem discordar, que ignora as suas vítimas inocentes, e que mede a injustiça pela cor da pele em vez da gravidade do crime, é uma sociedade que rejeita, diariamente, os fundamentos da civilização ocidental. É uma sociedade que escolheu a barbárie disfarçada de virtude, a intolerância mascarada de progressismo, e a tirania apresentada como libertação.
A questão que se deve colocar não é se podemos coexistir com esta hipocrisia, mas se podemos sobreviver a ela. A resposta a esta pergunta pode determinar não só o futuro do Ocidente, mas, também, a própria possibilidade de uma sociedade baseada na razão, na liberdade e na dignidade humana universal.
O tempo da complacência terminou. Ou defendemos, sem reservas e sem hesitações, os princípios que nos definem como civilização, ou assistiremos à sua destruição pelas mãos daqueles que dizem protegê-los. A escolha é nossa, mas o tempo escasseia.
Comentários
Enviar um comentário