A farsa da ignorância diplomada

 




Num país que recebeu com choque a notícia da quebra de alunos que ingressam no ensino superior e que teima em se ver ao espelho com os olhos da complacência, onde os clichês ocos ecoam mais alto que a razão, urge revisitar o que julgamos saber sobre a educação. Aquilo que, no silêncio do nosso ofício, se desenrola entre paredes de sala de aula, precisa de ser validado, não por um mero capricho, mas pela necessidade de prestar contas a uma sociedade que, em última instância, nos sustenta e exige coerência. E é aqui que a balança da arbitragem se inclina, por vezes com um peso que nos incomoda, mas que é, no final de contas, inadiável.

O sistema de ensino, com os seus objetivos grandiosos inscritos em programas, é uma teia de intenções. A partir dessa generalidade, cada mestre, no seu atelier pedagógico, molda metas mais específicas. E cada estudante, esse caminheiro singular, traça o seu percurso. O que importa, no fim de contas, não é a diversidade dos trilhos, mas a chegada, o cumprimento dos objetivos. E para isso, precisamos de bússolas. Onde estão os alunos? Estão a avançar? Os progressos são suficientes para alcançar a meta no fim da linha? Sem esta informação, sem esta luz descritiva e informativa que a avaliação nos dá, ficamos à deriva. A avaliação, no seu sentido mais puro, é um retrato do "o que é", comparado com o "o que deveria ser". É a identificação das discrepâncias, a busca pelas causas e a formulação de novas estratégias para que o aluno não se perca pelo caminho. É um farol que guia o professor e o estudante.

Entre os tipos de avaliação que se distinguem – diagnóstica, formativa e sumativa –, é a formativa que realmente nos acompanha, que se imiscui no processo de ensino, que interfere, que molda. É ela que, fundamentalmente, serve o binómio mestre-aluno, contribuindo para que os resultados se aproximem das metas desejadas.

E depois, há a classificação. Este é o momento em que a informação detalhada da avaliação se transmuta num juízo de valor. É o ato de colocar um indivíduo numa escala, comparando o seu resultado com um padrão pré-estabelecido. É o "13" numa escala de "1 a 20" que resume a complexidade de ter acertado em umas perguntas, mas falhado noutras. É a classificação que valoriza e hierarquiza, enquanto a avaliação se limita a descrever e a informar. Uma tem um caráter seletivo; a outra, um caráter formativo. Não pode haver classificação sem avaliação prévia, mas a recíproca não é verdadeira. A avaliação pode e deve existir por si só.

Ora, a classificação, apesar de indispensável, não está isenta de problemas. Transforma-se, tantas vezes, num fim em si mesma, num motor de competição doentia, de ansiedade, de complexos de inferioridade. Leva, por vezes, a atalhos menos nobres. Mas é também, e aqui reside o paradoxo da vida e da educação, um elo de ligação e de certificação com o mundo exterior. É uma ferramenta de relativização, uma forma de harmonizar os múltiplos juízos de um universo de escolas e professores. É para isto que, por exemplo, os exames nacionais são incontornáveis. Eles são o nosso selo de credibilidade, o contrapeso à falácia de que todos têm de ser iguais.

Cinquenta anos depois do 25 de Abril, é tempo de atirar para o caixote do lixo os "slogans" vazios de sentido. A igualdade de oportunidades, no seu sentido mais literal, é uma quimera. O verdadeiro desígnio, utópico e nobre, deve ser a desigualdade de oportunidades: dar a cada um aquilo de que precisa para desabrochar todas as suas potencialidades. Porque, na vida, como na escola, nem todos nascem iguais e o percurso de cada um é único.

Nenhum sistema sério, por mais bondoso que se queira, pode diplomar a ignorância. É esta, afinal, a questão central e o conceito do velho "chumbo": o Estado, quando é sério, não atesta que alguém sabe, quando na verdade não sabe. A fantasia de que ninguém pode ficar para trás, independentemente do seu esforço ou conhecimento, é uma falácia que nos tem custado caro. A Noruega, que tanto se invoca, com os seus 26% de abandonos ou chumbos no secundário, demonstra que a realidade não é um conto de fadas.

Para que se volte a dar credibilidade a este sistema, proponho duas medidas, simples na sua essência e potentes nos seus efeitos. Primeiro, a uniformização dos sistemas classificativos, tornando-os claros e concisos, libertos de burocracias. Segundo, a recuperação dos exames nacionais, sérios e abrangentes, no final de todos os ciclos de estudo, garantindo a comparabilidade dos resultados. Só assim poderemos caminhar na direção de um sistema que distingue o que não é igual, com clareza e com coragem, deixando para trás a falácia de que o conhecimento, no final, é algo negociável. E afinal, o que é a vida, senão uma constante negociação entre o que queremos e o que a realidade nos impõe?

 

 

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