Autonomia, Participação e Liderança

Se entendermos o desenvolvimento educativo como um puzzle, devemos entender a autonomia, a participação e a liderança como peças que se encaixam de forma perfeita, para sustentar o progresso nas organizações escolares. Fazendo uma análise a esta tríade, descobrimos que existe uma enorme dependência entre elas, como também a importância que têm para a promoção de um ambiente escolar que seja, não só, dinâmico, como também, democrático e eficaz.


A capacidade de ação autodirigida a nível organizacional é representada pela autonomia. A autonomia é, efetivamente, a capacidade, no contexto da organização escolar, que os docentes têm para adaptar as suas práticas pedagógicas e a capacidade que a própria escola tem para se adaptar às necessidades da comunidade que serve.


No entanto, a autonomia não deve ser encarada como um conceito estático ou absoluto, deve, isso sim, ser vista com um processo dinâmico e contextualizado. Só assim podemos esperar que floresça, juntamente com o sentimento, por parte dos docentes, de estarem capacitados para tomar decisões e assumirem as suas consequências.





Mas engane-se quem considera que a autonomia só por si é suficiente. Na realidade, necessita de um terreno fértil para se concretizar. Nomeadamente, de uma participação ativa e comprometida de toda a comunidade escolar. Essa participação tem de transcender à mera presença ou à consulta esporádica, implica, isso sim, um efetivo envolvimento na tomada de decisões que definem o rumo da instituição. Para isso é preciso que todos se sintam ouvidos, valorizados e considerados independentemente da sua função na organização.


É percetível que esta participação não está isenta de desafios, pois carece de um esforço de todos os intervenientes para um diálogo honesto e a gestão construtiva de conflitos. Temos de, urgentemente, abandonar a ideia de que a participação de todos é um processo harmonioso e consensual. Pelo contrário, a ambição de que todos possam participar, faz dela um processo altamente complexo e que por vezes pode até levar a conflitos entre as partes envolvidas e esse facto exige uma capacidade de encaixe da crítica, que reconheça a diversidade de opiniões como valor acrescentado, e uma abertura para ser capaz de abandonar preconceitos e construir consensos a partir do dissenso.


É precisamente neste ponto que entra a liderança. É aqui que a liderança assume um papel crucial. Na organização escolar, a liderança eficaz e democrática não passa por uma imposição ou controlo das estruturas intermédias, passa, sim, pela capacidade de inspirar, motivar e mobilizar a comunidade para que, juntos, cumpram com os objetivos comuns, elaborados com base na participação no âmbito da autonomia.


O que destaca este tipo de liderança, eficaz e democrática, é a capacidade de promover a autonomia e a participação, de forma que se consiga criar um clima organizacional onde todos se sintam respeitados e confiantes para poderem colaborar, sejam professores, alunos ou pais e encarregados de educação. É fundamental que nessa estreita e desejável colaboração e sinergia, cada um dos vértices intervenha respeitando o espaço e funções específicas do outro! Só se alcança este ambiente quando o líder opta por ser um ouvinte ativo, age com empatia e transparência e tem capacidade e segurança para partilhar o poder com as estruturas. Nesta organização não cabem modelos de liderança autoritários e hierárquicos.


Neste modelo de liderança organizacional o líder não é a figura central, é, antes de mais, um promotor de uma comunidade de líderes, onde todos se sentem com capacidade para contribuir e influenciar as decisões.


Tem de haver uma colaboração eficaz entre autonomia, participação e liderança, pois essa é essencial para o sucesso de qualquer organização, especialmente a organização escolar.


Umas sem as outras podem levar à frustração organizacional e à falta de motivação da comunidade.


É por este motivo que considero que a liderança desempenha um papel fundamental na promoção de um clima organizacional onde a autonomia e a participação tenham espaço para prosperar sem limites. Só com um compromisso, entre a autonomia, a participação e a liderança é que podemos transformar as escolas em espaços verdadeiramente democráticos. Mas, para que se seja possível que haja esse compromisso é também necessário que haja políticas públicas que acompanhem e apoiem a necessidade de as escolas serem mais autónomas, promovam a participação e desenvolvam programas de formação para capacitar os líderes escolares a praticar a liderança democrática.

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