A casa que deixámos de poder pagar
Em dez anos as casas duplicaram de preço e chegaram mais 1,2 milhões de imigrantes. O PS governou com o BE e o PCP. Agora, a mesma esquerda exige que o problema se resolva em meia dúzia de meses.
Em Portugal, comprar ou arrendar casa deixou de ser um projeto de vida. Passou a ser uma conta que não bate certo. Quem mais grita contra isto são o PS, o BE e o PCP, que organizam manifestações, montam tendas e exigem ao Governo soluções imediatas, como se a crise tivesse nascido em 2024. Vale a pena fazer o exercício que eles evitam e voltar a 2015, quando o PS chegou ao poder ao colo do BE e do PCP.
Durante os anos de governação socialista, o preço mediano das casas vendidas no país passou de 830 €/m², no início de 2016, para 2.076 €/m² em 2025, mais 150%. No primeiro trimestre de 2026 já ia nos 2.337 €/m². Nas grandes cidades o salto foi maior. No município de Lisboa o metro quadrado custava 2.315 euros em 2017 e custa hoje 5.292. No Porto custava 1.460 euros em 2018, e a área metropolitana chegou aos 2.305 euros em 2025. A Península de Setúbal, para onde foram as famílias que deixaram de caber em Lisboa, chegou aos 2.596 euros em 2025 e é agora a região onde os preços mais sobem, com +28,9% num só trimestre.
Os preços sobem assim quando há muita gente a disputar poucas casas, e a primeira razão para haver mais gente tem autores conhecidos. Em 2015 viviam legalmente em Portugal 388.731 estrangeiros. No final de 2025 eram 1.585.854, quase 14% da população. São mais 1,2 milhões de pessoas em dez anos, com saltos de 39% em 2022 e de 31% em 2023.
A porta abriu-se com a manifestação de interesse. Em 2017, a Lei 59/2017 deixou que um estrangeiro entrasse como turista e se legalizasse depois, desde que mostrasse que trabalhava cá. Em 2019, ainda no tempo da geringonça, a Lei 28/2019 passou a presumir a entrada legal de quem tivesse descontos para a Segurança Social. Segundo a AIMA, mais de metade dos títulos de residência dos últimos anos saiu daqui. Quando o atual Governo acabou com o regime, em junho de 2024, encontrou 446.921 processos por tratar. Bastou fechar a porta para os novos pedidos caírem 59%.
Cerca de 71% destes residentes vivem nos distritos de Lisboa, Faro, Setúbal e Porto, justamente onde já faltavam casas. Mais 1,2 milhões de pessoas à procura de um teto, nas mesmas zonas, só podia dar em rendas a disparar, a começar pelos quartos e T1 que serviam estudantes e jovens. Quem veio trabalhar não tem culpa, e muitos vivem eles próprios em condições indignas. A culpa é de quem governava. A esquerda que hoje se diz defensora dos imigrantes deixou-os entrar aos milhares sem perguntar onde iam morar e alimentou a escassez de que agora se queixa.
Também os que vieram de passagem disputaram as mesmas casas. Em 2015 o alojamento turístico recebeu cerca de 19,2 milhões de hóspedes e em 2025 recebeu 32,5 milhões, mais 69%. Nos centros de Lisboa e do Porto, cada apartamento que passou para alojamento local saiu do arrendamento. Os governos socialistas deixaram este modelo crescer anos a fio, contentes com as receitas, e só acordaram em 2023 com o Mais Habitação, uma suspensão de registos feita à pressa.
Juntou-se a isto o dinheiro de fora, que o PS fez questão de atrair com os vistos gold e o regime dos residentes não habituais. O famoso "de 5% para 28%" mistura dois números. Os compradores com domicílio fiscal no estrangeiro ficaram com cerca de 5% das casas vendidas em 2025, mas pagaram muito mais, e um comprador de fora da UE paga em média o dobro de um residente. Já os compradores de nacionalidade estrangeira, vivam cá ou lá fora, compraram 41.086 casas, cerca de uma em cada quatro, e 27,6% do total segundo o INE. O investidor de fora puxa os preços no topo e o grande aumento vem de imigrantes que já cá vivem. Os partidos que hoje atacam os "especuladores" passaram anos a segurar no poder o Governo que lhes estendeu a passadeira.
Tanta procura só seria aguentável se houvesse casas a acompanhar. Em 2015 acabaram-se apenas 7.148 casas novas em todo o país, o número mais baixo deste século. Entre 2016 e 2021 nunca se chegou às 20 mil, e só em 2025 se atingiram 27.301. Só a população estrangeira cresceu, em média, mais de 100 mil pessoas por ano. As contas não batem, e qualquer governo atento teria dado por isso. O pouco que se construiu foi para quem tem dinheiro. Em Lisboa, a casa nova vendeu-se a 5.890 €/m² em 2025, e quem compra a partir do estrangeiro pagou ali 6.026 €/m². Com licenças que demoram anos, impostos pesados e falta de mão-de-obra, o promotor só faz contas com quem pode pagar.
Do outro lado estão os salários, que a esquerda gosta de exibir como troféu. Segundo a PORDATA, entre 2015 e 2022, em plena governação socialista, as casas ficaram 90% mais caras e os salários subiram 20%. Entre 2020 e 2024, Portugal teve a segunda maior subida de preços da União Europeia, a seguir à Grécia, e um dos poderes de compra mais baixos. O salário mínimo passou de 505 para 920 euros, mais 82%, o que não chega para uma casa que subiu 150%. A remuneração bruta média ficou nos 1.602 euros em 2024. Um T2 de 70 m² ao preço mediano custa hoje cerca de 145 mil euros no país e mais de 340 mil em Lisboa.
Quem estava ao leme? O PS governou de novembro de 2015 a abril de 2024, quase nove anos. Nos primeiros quatro teve acordos escritos com o BE e o PCP, até 2021 contou com eles para os orçamentos e de 2022 a 2024 governou com maioria absoluta, sem parceiros a quem passar culpas. O BE e o PCP nunca tiveram ministros, mas deram ao PS a maioria de que precisava e aprovaram orçamentos em que a habitação nunca foi prioridade. Quem segura um governo durante anos responde pelo que ele faz e pelo que deixa por fazer. A habitação pública ficou nos 2% do total, longe dos 25% a 30% da Áustria ou dos Países Baixos, e isto com partidos que fazem dela bandeira. Programas como o Primeiro Direito ou o Arrendamento Acessível ficaram muito aquém do anunciado.
Por isso a hipocrisia custa a engolir. Os partidos que governaram ou seguraram o Governo durante quase uma década aparecem agora nas manifestações e nos acampamentos como se estivessem de fora. Exigem que o Governo da AD, em funções desde abril de 2024, resolva em dois anos e meio o que deixaram crescer durante nove. Falam como se bastasse vontade política para baixar rendas de um mês para o outro, quando tiveram todos os meios e não o fizeram. Uma casa licenciada hoje leva anos a ficar pronta, e a esquerda sabe-o melhor do que ninguém. Pedir soluções em meia dúzia de meses é cálculo político, para que se esqueça quem estava no poder quando a crise se instalou.
Sair do buraco exige o contrário do que se fez. Licenciamento com prazos públicos e regras iguais nos 308 municípios. Terrenos públicos cedidos a cooperativas e promotores em troca de rendas máximas. Uma meta de habitação pública escrita na lei. Imigração ligada a contratos de trabalho e à garantia de alojamento digno. Formação e entrada mais rápida de trabalhadores para a construção. IMI agravado para as 723 mil casas vazias e isenção para quem arrenda. E serviços, emprego e bons comboios no interior. Nada disto dá resultados em seis meses, e quem promete o contrário está a enganar os portugueses.
Há quem leia isto de outra maneira. Os críticos lembram que o mínimo de construção de 2015 vem da crise e da troika e que, com o PS, a construção nova mais do que triplicou. Dizem que os preços subiram em quase toda a Europa com os juros baixos, que os imigrantes seguram setores sem mão-de-obra e que os recordes de preço continuaram depois de 2024. São argumentos que explicam parte do contexto, mas não apagam as escolhas feitas entre 2015 e 2024, nem dão a quem as fez o direito de fingir que não estava lá.
Fontes
INE, Estatísticas de Preços da Habitação ao Nível Local, 1.º trimestre de 2026
INE, preços medianos de 2025 por região e município (The Portugal News)
INE, preços de 2016 a 2019 (idealista), INE, 1.º trimestre de 2018, Porto em 2018
INE, avaliação bancária de agosto de 2026 (RTP), Península de Setúbal (Doutor Finanças)
AIMA, relatório intercalar, AIMA, relatório de 2025 (Postal), DN, ritmo de crescimento
PORDATA, população estrangeira residente
Decreto-Lei 37-A/2024, APCMC sobre a Lei 59/2017 e a Lei 28/2019
INE, turismo em 2025 (Executive Digest), INE, turismo em 2016 (DN Madeira)
INE, transações por domicílio fiscal em 2025 (idealista), INE, compradores por nacionalidade (idealista), AICCOPN com dados do INE
Observador, fact-check sobre a construção em 2015, INE, obras de 2024, INE, obras de 2025, INE, obras de 2022 e 2023
PORDATA, casas +90% e salários +20%, PORDATA, UE entre 2020 e 2024 (RR), INE,
salário médio de 2024 (RR)

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