A Falsa Promessa Verde
Numa
época em que questionar a narrativa dominante relativamente à transição
energética no setor automóvel tornou-se quase uma heresia, arrisco a
escrever este texto em jeito de alerta. Quem faz o alerta não sou eu, mas
vários estudos, que tem dificuldades em conseguirem ser notícia nos órgãos de
comunicação social mainstream e a maior construtora de automóveis mundial, a
Toyota.
Assistimos
diariamente à pressão mediática e política para a transição energética que se
torna difícil alguém atrever-se a analisar de forma idónea os dados científicos
ao alcance de uma pequena pesquisa nos motores de busca disponível a qualquer
um.
Contudo,
começam a aparecer estudos, nomeadamente na Alemanha, e declarações do gigante
da indústria automóvel que revelam uma realidade bem diferente da que nos é
vendida diariamente.
Por
exemplo, um estudo alemão recente revelou que o Tesla Model 3, que é
considerado o símbolo da mobilidade sustentável, pode produzir mais CO2 do que
um carro a diesel equivalente quando colocamos na equação todo o ciclo de vida
do automóvel. Esta conclusão devia, no mínimo, fazer-nos parar e refletir. Mas,
em vez disso, continua a ser totalmente ignorada não só pelos principais meios
de comunicação social, mas, sobretudo, pelos decisores políticos.
A
Alemanha, que é por todos reconhecido como sendo um país com rigor científico e
país natal da segunda maior construtora mundial de automóveis, a Volkswagen,
insiste que os carros elétricos podem, na realidade, ser mais poluentes que os
veículos convencionais. Esta afirmação não se trata de mera opinião ou de um
negacionismo climático, mas de análises técnicas que incluem fatores como a
produção das baterias, e o impacto ambiental da extração do lítio, a origem da
eletricidade utilizada para carregar os veículos, o ciclo completo de vida útil
dos componentes que compõem os motores elétricos e os custos ambientais da
reciclagem das baterias.
Sustentando
esta narrativa, Akio Toyoda, chairman da Toyota, afirmou categoricamente que os
carros elétricos serão minoritários no futuro, ou seja, não são o futuro. Esta
declaração, vinda de alguém com décadas de experiência na indústria e acesso a
dados técnicos privilegiados, deveria ter peso significativo no debate público.
Como
se sabe, a Toyota foi pioneira nos híbridos com o Prius, carro que começou a
ser produzido em 1997, argumenta que um carro elétrico pode ser tão poluente
quanto três híbridos. Esta evidência esbarra frontalmente com a lógica da
eletrificação total da mobilidade.
Não
seria prudente ouvir atentamente uma empresa que domina a tecnologia híbrida há
mais de duas décadas e que continua a expressar estas dúvidas?
A
quem interessa esta eletrificação total da mobilidade automóvel?
Não
estarei longe da realidade se disser que interessa sobretudo à China. Se não
vejamos. Enquanto o Ocidente continua entretida com as regulamentações, cada
vez mais restritivas, e metas ambiciosas de eletrificação, a China foi-se
tornando, silenciosamente, o maior produtor mundial de carros elétricos. Seria
ingénuo se considerasse que é uma coincidência. Vejo-a como uma estratégia
geopolítica cuidadosamente planeada.
É
sabido que a China controla a maior parte da cadeia de fornecimento de
materiais críticos para baterias, desde a extração do lítio até ao
processamento de terras raras. Por esse motivo é a maior interessada em promover
a eletrificação global, pois, com essa estratégia, não só exporta os seus
produtos como também cria dependência tecnológica nos países importadores, como
aconteceu com os ventiladores na pandemia.
Outro
enorme paradoxo desta eletrificação global é que os países europeus, por um
lado, fecham as centrais nucleares limpas para importar eletricidade produzida
com carvão, enquanto, por outro lado, compram carros "verdes"
fabricados na China que usa uma energia maioritariamente baseada em
combustíveis fósseis.
Uma
concertada pressão mediática criou uma espécie de histeria coletiva que incute
a ideia de que comprar um carro elétrico se tornou sinónimo de consciência
ambiental, mesmo que os dados científicos nos indiquem precisamente o
contrário.
Os
consumidores, doutrinados pelos media, correm para os concessionários sem
compreenderem os verdadeiros custos ambientais da tecnologia das suas compras,
a adequação do veículo que adquirem às suas reais necessidades, às
infraestruturas de carregamento disponíveis, basta ver as filas que se veem no
verão nos postos de carregamento das autoestradas, o impacto económico a longo
prazo, a desvalorização de carros elétricos pode variar, mas em geral, eles
tendem a desvalorizar mais rapidamente do que carros a combustão, especialmente
nos primeiros anos.
Para
agravar o cenário, esta corrida aos carros elétricos é alimentada por
incentivos governamentais financiados por todos os contribuintes que acabam por
distorcer o mercado que beneficiam principalmente os fabricantes estrangeiros,
que conseguem colocar os carros a preços reduzidos e prejudicam a indústria
automóvel europeia tradicional.
As
contas são simples de se fazer, enquanto consumidores ocidentais pagam preços
premium por tecnologia questionável, empresas chinesas consolidam posições
dominantes em mercados estratégicos. Com isto, a indústria automóvel europeia é
forçada a uma transição energética acelerada, perde competitividade global e
elimina postos de trabalho.
Não
podemos pensar que esta reflexão que deve ser feita é e negar a importância da
proteção ambiental. É a necessidade de questionar se as soluções que nos estão
a ser “impostas” são realmente as mais eficazes.
Segunda
a Toyota, a diversidade tecnológica, incluindo híbridos, combustíveis
sintéticos, hidrogénio e melhorias nos motores convencionais, poderia ser mais
benéfica que a imposição dogmática de uma única tecnologia.
O
percurso para uma sustentabilidade efetiva dever ser sustentada numa análise
rigorosa, não em slogans publicitários. Já é tempo de colocar o dedo na ferida
e questionarmos se com esta doutrinação global estamos a servir o ambiente ou
se estamos apenas a alimentar interesses comerciais disfarçados de consciência
ecológica.
Na
história não são raros os exemplos onde determinadas narrativas que foram
dominantes, e narradas em uníssono, mascararam interesses económicos obscuros
dos poderosos.
Parece-me
evidente que a atual pressão global pela eletrificação total da mobilidade é mais
um desses casos. Por trás de um discurso de consciência ambiental, que serve de
cortina de fumo, há um enorme negócio que pretende redistribuir globalmente a
riqueza e o poder.
Enquanto
cidadãos, temos o direito, e sobretudo o dever, de exigir transparência, acesso
a dados científicos rigorosos em horário nobre e debates honestos sobre que futuro
devemos seguir para uma mobilidade sustentável.
Só
com confrontados com os dados reais, sem doutrinas é que poderemos tomar
decisões conscientes, verdadeiramente informadas, em vez de sermos manipulados
por campanhas de marketing disfarçadas de ambientalismo.
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