Da gestão escolar

 



Vai-se lendo e ouvindo uma crescente tendência de pensamento de que se deve entregar a gestão das organizações escolares a profissionais que não tenham relação com a educação, a profissionais que venham do mundo empresarial, a gestores. Esta tendência é demonstrativa de um enorme desconhecimento daquilo que é realidade de uma organização escolar, e todas as suas especificidades que são incomparáveis com qualquer outra organização, pelo que é até estranho que seja sugerido por professores.

Ignorar as particularidades da organização escolar é fatal, pois esta é um espaço social singular, sobretudo, caracterizado por uma complexa teia de relações entre as pessoas e os processos pedagógicos que transcendem qualquer lógica de uma qualquer outra organização muito mais administrativa.

A escola é considerada por muitos autores como sendo a organização com maior natureza humana e social. Por esse motivo, é extremamente redutor tentar reduzir a escola a uma unidade de produção onde se medem os inputs, outputs e calculam-se lucros e prejuízos. A escola é um espaço de formação humana, onde o produto final não é mensurável em termos quantitativos nem em termos financeiros, mas sim na qualidade da formação integral dos seus alunos e no desenvolvimento enquanto cidadãos críticos, reflexivos e conscientes.

É perigoso tentar levar a lógica empresarial à gestão escolar, pois esse pode ser um enorme risco para a qualidade de ensino. Se um gestor, sem formação pedagógica, assumir o comando de uma instituição educativa, observar-se-á uma tendência para priorizar métricas quantitativas, aspetos financeiros em detrimento de aspetos qualitativos e fundamentais para o desenvolvimento do processo educativo.

Se transportarmos para a educação a obsessão por indicadores de desempenho e resultados mensuráveis ao nível da gestão, podemos comprometer a essência do processo educativo. Esta lógica neoliberal penetrou profundamente em alguns sistemas educativos onde hoje se consegue observar esses fenómenos e um recuo nas políticas.

Temos de acabar com o endeusamento dos gestores, como se os gestores resolvessem tudo em todo o lado. Até porque a história recente têm-nos presenteado numerosos exemplos dos resultados da gestão puramente financeira. Por exemplo a falência do Lehman Brothers em 2008, que trouxe uma das maiores crises financeiras do século, ilustra bem como os gestores podem conduzir as organizações ao colapso quando apenas priorizam os ganhos a curto prazo em detrimento da sustentabilidade e a preocupação com as pessoas.

No contexto português, também temos maus exemplos dados por “grandes” gestores, como são os casos do Banco Privado Português de João Rendeiro e do Banco Espírito Santo de Ricardo Salgado. Estes dois casos demonstram como a gestão pura e dura pode resultar em desastres não apenas económicos, mas também sociais.

Nesse sentido, o melhor é não alvitrar sequer a importação de gestores para a gestão das escolas, pois gerir uma escola requer uma compreensão dos processos educativos, uma atenção especial para com as pessoas e o seu bem-estar, alunos, professores, assistentes operacionais.

Um gestor escolar deve ser, em primeiríssimo lugar, um educador que compreende as dimensões pedagógicas, sociais e culturais da escola, que opte por colocar em prática uma gestão democrática e participativa.

Este modus operandi é fundamental para que a escola possa cumprir com a sua função social. Esta gestão deve estar alinhada com os princípios educativos e não com lógicas de mercado.

No fundo, a gestão escolar nada tem a ver com outra qualquer gestão empresarial, porque os seus objetivos são diferenciados. Enquanto as empresas visam o lucro e a produtividade, e esses são o seu propósito, as escolas têm como missão a formação de seres humanos, um processo de uma enorme complexidade que requer uma compreensão profunda dos fenómenos educativos que só alguém conhecedor do terreno, conhecedor da organização escola é que é capaz de os compreender

Nesse sentido, a solução mais adequada passa por manter a gestão das escolas entregue aos professores, esperando que estes ajam sempre como professores que ocupam um cargo e não como gestores “puros”, evitem a carreira própria e mantenham-se fieis ao propósito de existência das escolas. Só assim poderemos garantir que as nossas escolas permaneçam fieis ao seu propósito primordial, a formação de cidadãos críticos, conscientes e preparados para os desafios de um futuro cada vez mais incerto.

 

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